quarta-feira, 23 de maio de 2012

Cuspir no prato em que comeu–Parte II (Final)

A intolerância religiosa é pauta no dia-a-dia da Umbanda e de todas religiões afro-brasileiras! Intolerância "intra" e "inter" religiosa.
Com respeito a intolerância intra-religiosa (por dentro da Umbanda, no nosso caso), os artigos desse blog estão repletos de referências, reflexões e exemplos.
Mais urgente, é falarmos sobre o aspecto da intolerância inter-religiosa (das outras religiões em relação a nossa), essa é a causa que deveria nos unir independente das diferenças e dos motivos que nos separam.
Próximos a nós, pelos laços do fenômeno mediúnico, continuamos a sermos considerados "baixo espiritismo" (engraçado é que nunca pretendemos ser "alto espiritismo", ou algo que o valha), por adeptos de uma doutrina, que exige não ser tratada como uma religião, mas que age como uma, principalmente ao fazer esse tipo de comparação. Chegamos ao ponto de assistirmos um movimento de interpretação e prática da Umbanda sob o ponto de vista e orientação da doutrina de Kardec. Livros é que não faltam para corroborar o que eu estou dizendo. O certo e errado para Umbanda agora é definido por conceitos, metodologias e práticas espíritas.
Cercando-nos, estão os diversos segmentos evangélicos (pentecostalismo, neo-pentecostalismo e os ministérios similares), do lado católico a Renovação Carismática e demais grupos de fé avivada que estão se proliferando em seu seio.
Para completar, como citei na primeira parte desse artigo, os evangélicos buscaram na força política aumentar sua presença no centro das decisões e a Igreja Católica com a Concordata dar a volta por cima "matando dois coelhos com uma cajadada só" (os evangélicos e as demais religiões, no meio as religiões afro-brasileiras).
Interessante observar que, no caso dos evangélicos, bastando um mergulho raso na vida de Lutero, por exemplo, percebemos, que nunca foi o desejo dele, toda violência e revolta que tomou conta da Europa por conta da Reforma. Seu ideal original era a reforma por dentro do Catolicismo (para isso como monge ele tentou a todo custo valer suas teses), e não por fora e, principalmente, servindo como bandeira para as questões políticas e sócio-econômicas que solapavam o velho continente à época. Por outro lado, no caso da Igreja Católica, Jesus nunca quis fundar uma religião, arranjaram a pedra e sentaram Pedro nela e ninguém disse nada, como quem cala consente... O Imperador Constantino[1], mais tarde, realizou o que está longe de uma comparação, mas que podemos aludir como a primeira concordata da Igreja.
Allan Kardec era um professor, que diante das manifestações mediúnicas, que ocorriam nos salões da capital francesa, descobriu as portas para o mundo espiritual e de forma isenta, ética e livre de preconceitos procurou formatar uma doutrina de entendimento e prática desses fenômenos.
Importante dizer a meu favor, que não sou contra as lutas que se referem as questões de desigualdade social e econômica, e dos direitos liberdade de qualquer espécie, como as situações que ocorriam na Europa na época de Lutero. Nem tão pouco, sou alheio ao sofrimento encetado pela perseguição aos primeiros cristãos. A minha visão aqui é que, em ambos os casos, a causa destes (Lutero e os primeiros cristãos), eram por uma espiritualidade maior e os homens a transformaram em conquista de poder, teocracia e império econômico-financeiro. Tenho também o maior respeito pelo Espiritismo, mas não posso concordar com o desprezo de alguns seguidores desta doutrina aos fenômenos mediúnicos umbandistas, a desqualificação espiritual que fazem das nossas entidades, muito menos, como já explanei reiteradas vezes, com a releitura formatada dessa dita "umbanda espírita". 
O fato é que se partirmos exclusivamente das intenções reais de Lutero, de Jesus e de Kardec, nada justifica, a intolerância religiosa que vemos se manisfestar desde o passado até os dias atuais. Em menor ou maior proporção, essa intolerância acontece e diante disso muitos membros das religiões afro-brasileiras já estão agindo de forma reativa a essas ocorrências. Está se tornando um círculo vicioso.
Se fecharmos um olhar sobre os evangélicos, por serem estes os que mais costumam praticar uma "cruzada messiânica" contra nós, podemos listar um incontável número de situações que vivenciamos no nosso dia-a-dia:
  1. As frases, "Jesus te ama!", "Queima Jesus", "Esteja repreendido", "Sangue de Jesus tem poder", " Deus é Fiel", "Só Jesus salva!" e outras mais, usadas como uma arma de confrontação.
  2. Os alto-falantes voltados para as ruas, e os sons cada vez mais potentes das igrejas (será que eles acreditam mesmo, que a gente ao escutar, como se diz aqui no Ceará, vai "emprenhar pelo ouvido"[2] e se entregar a Jesus, só porque eles querem?).
  3. A invasão catequista dos armados com a Bíblia nas poucas cerimônias públicas que realizamos, como as Festas de Yemanjá nas praias.
  4. O entupimento nas caixas de correio de nossas residências com folhetos, panfletos e mensagens doutrinárias.
  5. O acordar, em pleno domingo às 7h00 da manhã, com gente na nossa porta perguntando se sabemos o nome de Deus.
  6. Os "spams" nas caixas de entrada dos nossos e-mails.
  7. Os "fakes" criados para detratar as religiões afro-brasileiras em vídeo, nas redes sociais e em alguns sites, às vezes se passando por gente nossa.
  8. As entradas de "nicks" seja como indivíduos ou grupos nas salas on-line, chats e listas de discussão.
  9. A proliferação de informação, na verdade desinformação, sobre as religiões afro-brasileiras que se propaga na web, na imprensa etc.
  10. As cisões familiares pela conversão de um, ou de alguns de seus membros, pois eles não se contentam em apenas se converterem é preciso a partir daí converter a todos, sem exceção.
  11. A segregação a todos que não pertencem a igreja e o repúdio a tudo na vida que não está de acordo com a Bíblia.
  12. A facilidade com que tudo que é relacionado aos rituais das religiões afro-brasileiras serem taxados de "magia negra" e "coisas do demônio".
Enfim, poderia acrescentar uma quantidade imensa de pontos aos aqui listados. Se você for atrás e fazer uma contagem de quantas vezes eles pronunciam as palavras Jesus e Satanás, acho que Jesus ganharia por uma pequena margem. Se fosse uma eleição teria segundo turno. Se não existisse Satanás, quem ocuparia seu lugar? Sim, porque sem o diabo não tinha o que ser combatido, logo seria uma vida sem motivo e uma guerra sem causa. Brincadeiras a parte, a pergunta que não quer calar é a seguinte: Tudo isso denigre e invalida o protestantismo como religião? Desqualifica seu "religare"? Não! Não vejo essa atitude partindo, por exemplo e me corrijam se eu estiver errado, de batistas e presbiterianos. Percebo esse recrudescimento gerado pelos pentecostais, neo-pentecostais, avivados e os defensores da teologia da prosperidade. Esses sim, me parecem levar sua crença em Jesus as últimas consequências em suas vidas e em relação a vida dos outros.
Mas a maior chaga, na minha opinião, o pior tipo de convertido é aquele que foi ex-adepto da Umbanda, do Candomblé, de alguma religião afro-brasileira.
Esse sim, chega a um tipo de enfrentamento e confrontação extrema. Esse é tomado por uma necessidade fora do comum de expurgar de si o que agora considera pustulento e asqueroso.
Esse tipo de convertido, não precisa de uma lavagem cerebral, ele mesmo faz questão de uma lavagem de alma.
Para isso, o primeiro passo é negar a tudo e a todos que fizeram parte desse seu passado, que não podendo ser apagado da sua vida, tem ao menos que  ser esquecido, ou melhor apartado de vez. É necessário uma verdadeira catarse, por isso muitos reúnem os antigos pertences, da sua ex-religião (fardamentos, colares, imagens etc.) e queimam. Se fossemos usar o nosso linguajar é um descarrego dos "brabos"! Como eu já fiz alusão acima tem que se descarregar o mais profundo do seu "eu", faz-se urgência se passar de impuro para puro, de perdido para salvo, de pecador para um ser livre de pecados. Nova vida, novo mundo, novo tudo.
Assim amigos, familiares, locais, interesses dessa época devem ser ignorados por se tratarem agora de um chamamento a uma vida sem "Jesus". Rapidamente todos esses vazios são ocupados pela igreja, pelos fiéis, a bíblia etc., senão vejamos:
  1. A música passa a ser somente a do gênero gospel, cantado a todos os pulmões, servindo ao mesmo tempo de auto-hipnose e de tentativa de conversão de quem possa escutar.
  2. A leitura restrita tão somente a Bíblia, os livros, revistas e demais impressos da Igreja ou da literatura evangélica. A Bíblia aliás, nesse caso, vira sinal de identificação, pois ele passa a carregá-la para cima e para baixo para ficar bastante gasta, pois quanto mais ela parecer usada, mais a pessoa se apresenta aos demais irmãos como um leitor fiel. Ao mesmo tempo, passa a ter a mesma utilidade do "Almanaque dos Escoteiros-Mirins" (dos sobrinhos do Pato Donald - quem for das antigas, como eu, vai se lembrar), livro de consulta universal, em que se encontra resposta para tudo e qualquer coisa. Se não tiver na Bíblia, no mínimo não é verdade.
  3. As festas, baladas e shows que se costumava ir, agora só se for religiosamente correto e acompanhado dos "irmãos" e "irmãs" (Clube do Bolinha, misturado com o da "Luluzinha", em nome de Jesus).
  4. A bebida alcoólica que não podia faltar no passado, agora reconhecida como a "bebida do diabo", é substituída por refrigerante tomada aos júbilos e gritos de "Glória Senhor Jesus".
  5. O tempo passa a ser ocupado com tudo que for relacionado a igreja e se possível mantendo-se em grupo reunidos para uns ajudarem aos outros não caírem em tentação.
  6. O discurso muda, a maneira de falar também, se fala agora por versículos, capítulos e livros bíblicos, a conversa com um profano, ou melhor dizendo com alguém "sem Jesus", sempre tem a conotação de doutrinar, catequizar e converter.
  7. As roupas passam ser sóbrias e bem comportadas, pois expor o corpo de alguma forma é pecado.
  8. A vida tem que obrigatoriamente se transformar, pois tudo agora é melhor que antes, a uma grande diferença entre uma vida nas trevas e uma renovada em Jesus.
Devidamente pasteurizado, o segundo passo para o agora "irmão" ou "irmã" é ter que provar (esse é o maior dos problemas), que deixou para trás, de forma definitiva, a sua vida pregressa. É nesse instante que se começam as zombarias, as piadas, o sarcasmo, o fazer pouco, por exemplo da sua ex-religião, da vida que parece que não foi vivida, que foi um engano, um erro, uma queda, uma destruição. Como se lembrar das coisas boas que se viveu nessa época agora de trevas? Como sentir algo de bom pelos amigos dessa vida de descaminhos, que se tornou a Umbanda, para ficarmos no exemplo?
Se médium de incorporação, as entidades com quem tanto se trabalhou, se transformam da noite para o dia em "demônios", é o diabo Caboclo X, o demônio Preto-velho Y, o satanás Exu H e assim por diante. O Pai ou Mãe no Santo passa a ser Pai e Mãe da Macumba. Os irmãos de corrente são vistos como seguidores do demônio. Para todos eles um "queima Jesus", ou "esteja repreendido" já afasta o perigo causado por esse possível contágio. Sim, por que só em estar em ambiente próximo é um perigo, é como estar perto de alguém ou alguma coisa virulenta e mortal para a sua vida purificada.
A certeza dessa verdade, tem dividido famílias sim! Fundamentados na Bíblia, eles acreditam literalmente no evangelho de Mateus, em que Jesus afirma: “Não pensem que eu vim trazer paz à terra; eu não vim trazer a paz, e sim a Espada. De fato, eu vim separar o filho de seu pai, a filha de sua mãe, a nora de sua sogra. E os inimigos do homem serão os seus próprios familiares” (Mt 10, 34-36). Outra interpretação não há, a não ser no que na Bíblia está dito e traduzido. Se não conseguem enxergar além da letra que mata, se não abstraem o espírito que vivifica, não serei eu que tentarei convencer ninguém do contrário. Me abstenho de explicar o rico significado que esse trecho do Novo Testamento contém.
Uma coisa é certa, caros ex-umbandistas e neo-convertidos, o Amor de Jesus não está sujeito a literalidade de palavras escritas, pois esse Amor transcende a letra, pois é Espírito Vivo. A tudo e a todos envolve, e não somente aos escolhidos, ou os que decidiram escolhê-Lo. Ele não exclui, inclui, sem olhar, raça, orientação sexual, classe social e crença religiosa.
Aproveito o ensejo para encerrar, já que vós deveis, nessa sua nova "existência" acreditar piamente nessa passagem do Evangelho de Mateus, que também deveis acreditar em algo maior do que essa afirmação de Jesus, pois as palavras que citarei agora, vieram direto de Deus, do qual Jesus é o Filho, para serem gravadas com fogo nas tábuas que Moisés levou ao monte - o Quinto Mandamento: "Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá."
Se preferirem algo direto e claro, vou no popular: NÃO CUSPAM NO PRATO EM QUE COMERAM!
[1] Sobre o Imperador Constantino leia: O Império e a Igreja
[2] "Emprenhar pelo ouvido" é uma expressão que significa escutar uma coisa e acreditar sem questionar a veracidade da mesma, nem tentar ouvir as outras versões de uma mesma estória.

1 Comentários:

Blogger MÉDIUM FRANCISCO VIANA disse...

é isso ai adorei a postagem precisamos jogar por terra esse preconceito contra anossa umbanda

10:02 AM  

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