domingo, 20 de maio de 2012

Cuspir no prato em que comeu! – Parte I

Até para quem faz parte, entender o que é religião é muito complicado.
O sentido do "religare" fica perdido sob camadas e mais camadas de tantas outras coisas, que a maioria dos religiosos, nem conseguem descobrir qual o verdadeiro motivo que os fizeram cruzar as portas das igrejas, quanto mais o que os levou a decisão de realizarem os ritos de passagem ou iniciação (todas as religiões do mundo tem seus rituais de inclusão).
A função da religação com o Sagrado, que é o de conceder pleno significado a fé, proporcionar o motivo para a caminhada na senda escolhida e tornar-se a essência do viver religioso, quase nunca surge no consciente do adepto e se aparece está isento de significado e pior de relevância.
Por conta disso, a grande porta de entrada das pessoas nas religiões continua sendo a dor, em suas diversas matizes e consequências. Para alguns, pode ser também a vontade de fazer parte de alguma coisa (se tornar alguém se possível, ou no mínimo um igual),  para outros é simplesmente fuga da realidade. Raros são aqueles que chegam com a compreensão e o desejo real de desenvolver, com harmonia e equilíbrio, a sua espiritualidade (aqui usada no pleno sentido de elevação, transcendência e sublimidade).
Busca-se, na maioria das vezes e de forma desesperada, o tratamento dos sintomas e não das causas que os afligem. Com esse tipo de demanda os templos e casas espirituais acabam se transformando em prontos-socorros das mazelas humanas, unidades de emergência para soluções de todo e qualquer tipo de problema, consultórios sentimentais, psicológicos, emocionais e psíquicos, em resumo, a última esperança, os botes salvadores do naufrágio do "Titanic" que são as suas vidas.
Embora não seja uma ideia original de Karl Marx, na sua obra publicada em 1844, Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, encontramos a citação que se tornou famosa desde então: "A religião é o ópio do povo" (em alemão "Die Religion ... Sie ist das Opium des Volkes")[1]. Antes de Marx, Henrich Reine (poeta romântico alemão) no seu ensaio sobre Ludwig Börne, em 1840,  escreveu: "Bendita seja uma religião, que derrama no amargo cálice da humanidade sofredora algumas doces e soporíferas gotas de ópio espiritual, algumas gotas de amor, fé e esperança."
Voltando, a obra de Marx, e anterior a frase que já citamos, destacamos ainda os seguintes excertos: "É este o fundamento da crítica irreligiosa: o homem faz a religião, a religião não faz o homem. E a religião é de fato a autoconsciência e o sentimento de si do homem, que ou não se encontrou ainda ou voltou a se perder.", mais ainda, "A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma."
Independente, se concordamos ou não com Karl Marx e do contexto e intenção de sua crítica, fica claro, pelo menos para mim, o sentido de troca que a maioria das pessoas realizam com as religiões.
Esse nivelamento por baixo, na minha opinião, é o que gera num extremo o fanatismo, a paixão exacerbada e a miopia religiosa, e do outro a indiferença, o ceticismo e o ateísmo. Entre um extremo e outro, temos as ilusões geradas pelas promessas de entrega que as religiões passam a significar e o puxar de tapete das decepções quando as fantasias da imaginação; seus devaneios, sonhos e quimeras caem por terra, se é que vocês estão me entendendo.
O ponto que eu quero chegar nesse momento é que as religiões atuam como válvulas de escape para uma boa parte da população, tábua de salvação para o que elas não conseguem encontrar nas rotinas de suas vidas.
As religiões deveriam ser uma opção de escolha, prestando o serviço de facilitadores para o último patamar da pirâmide de hierarquia das necessidades de Maslow, ou seja, a AUTO-REALIZAÇÃO! É fato que as religiões não se furtam ao trabalho para entregar ou melhorar as demais necessidades (Vide nosso artigo Maslow, Buda e a Umbanda), porém ao serem, muitas vezes obrigadas a cumprir esse papel na sociedade, deixam para segundo plano o seu objetivo com o Sagrado. É isso que quis dizer no início com o "religare" ficar perdido sob camadas e mais camadas de tantas outras coisas.
Sob o olhar da ótica cristã, muitos poderiam me dizer agora, que as religiões realizam o que Jesus veio fazer nesse mundo, afinal Ele aqui esteve por causa dos doentes que precisam do médico e não pelos sãos. O que ninguém discute ou quer entender é que se estivéssemos fazendo a nossa parte, desde o começo, Ele não precisaria ter realizado esse sacrifício, ou melhor dizendo, esse sacro-ofício. Com certeza, Ele não teria sido transformado no polarizador de um apocalipse, o fim dos tempos tendo que realizar o julgamento sumário, fazendo a escoima do trigo, separando destes o joio.
Em suma, temos o comportamento errado e fazemos a mesma leitura que Marx enxerga na sua crítica, como sociedade produzimos a religião, uma consciência invertida do mundo, porque como sociedade somos um mundo invertido.
Por conta dessa leitura errônea, de tudo que já foi dito até aqui e por uma lista interminável de outros motivos é que grassa hoje em dia, o zelo religioso obsessivo que pode levar a extremos de intolerância. E aqui não me refiro aos homens-bombas e sim a corda que cada dia mais aperta o seu laço tentando enforcar as manifestações religiosas afro-brasileiras. Ao "muro de Berlim" que estão construindo, ao cerceamento invisível a liberdade de expressão religiosa, e ao ataque cada vez mais mobilizado, que me faz dizer brincando (não sei até quando), que em breve estarei batendo macumba nos porões e nas catacumbas, escondido como faziam os antigos cristãos. Isso sem falar nos possíveis "circus" erguidos em que seremos jogados aos leões.
Dramático, exagerado da minha parte? Talvez... Espero que nunca cheguemos a tanto, mas que os papéis estão se invertendo, isto estão.
A Lei do Silêncio usada por muitos para calar os tambores dos terreiros, a Lei Anti-Fumo em que poucas são aprovadas levando em consideração o uso do fumo e da fumaça como elemento ritualístico-religioso, pululam os projetos de lei proibindo o sacro-ofício de animais, ainda chamados de sacrifício e tortura, o labirinto burocrático e fiscalizador de órgãos públicos municipais, cujo os funcionários tomados por sua orientação religiosa cristã, dificultam registros de templos religiosos de matriz afro-brasileira, isenção de IPTU nem pensar, quando não invadem para fechar ou derrubar casas espirituais, como já vimos em notícias.
Isso sem falar da invasão na política, não se trata mais um o outro candidato, mas de bancadas e mais bancadas que cada vez ganham mais força para legislar sob a ótica de uma pauta que traduza os seus interesses religiosos. Fora o "Plano de Poder", livreto lançado em 2008, com o sub-título de "Deus, os Cristãos e a Política", que ao se ler o que está as claras e nas entrelinhas fala por si, é auto-explicativo e como dizem, para bom entendedor meia palavra basta, quanto mais um livro todo.
Teoria da Conspiração?!? Não, não sou afeito a esse tipo de coisas, mas que existe uma égregora de pressão, uma teia invisível se formando no inconsciente coletivo a isso existe! A Igreja Católica já algum tempo percebeu isso, tanto que nos vimos diante do acordo Vaticano-Brasil a chamada Concordata[2], que estabelece o estatuto jurídico da Igreja Católica no Brasil (Para maiores informações e texto na íntegra veja: "Conheça na íntegra o acordo Vaticano Brasil").
Tudo isso baila ao nosso redor (das religiões afro-brasileiras), estão quase conseguindo nos fazer a dançar conforme a música tocada por eles. Assistimos, ao meu ver, de forma passiva, acreditando que o céu jamais cairá nas nossas cabeças, enterrando nossas cabeças na areia (embora seja um mito já que o avestruz não faz isso - ao ser acuado ele baixa a cabeça até o chão). Vivemos aprisionados na égregora de estaticidade, inertes, parados, com pouca ou quase nenhuma reação, e aqueles que tentam alguma coisa a nosso favor são rechaçados, por nós mesmos, por não concordarmos que eles sejam os nossos legítimos representantes.
Enquanto algumas religiões entraram no século XXI buscando ganhar cada vez mais terreno de forma legítima, embora nem sempre constitucional, nós ainda vivemos na Idade da Pedra. Somos como os homens da caverna, ainda defendendo o território de nossos habitat dos demais grupos iguais, disputando o alimento, aos urros e gritos, mostrando nossos dentes, batendo no peito e agitando nossos tacapes de ossos sem efeito maior do que tentar assustar e espantar os outros com nossa bravata.
Queremos seguir em frente e vivermos em paz em um tempo que ninguém quer nos deixar fazer isso.
Esquecemos de cobrar, de reivindicar, agir como coletivo e não só como indivíduo sobre o que a constituição brasileira garante a todos, inclusive as religiões afro-brasileiras:
"Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
(…)
VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias; (…)"
Nesse aspecto estamos cuspindo no prato em que comemos!
Deixo essa primeira parte como uma contribuição para reflexão. Na segunda parte saio do macro e entro definitivamente no micro, ou seja, o real motivo que me levou a escrever esse artigo.

FIM DA PARTE I
[1] sobre Ópio do Povo veja:
[2] sobre Concordata veja um blog completo do tema em: Reação à Concordata

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