domingo, 9 de maio de 2010

A Ditadura da Forma e a Democracia da Essência

Determinado tipo de percepção que as pessoas possuem do mundo espiritual chama muito a minha atenção. Muitas vezes, o entendimento é que os seres espirituais, embora livre das ações e limitações que estamos sujeitos na matéria mais densa deste plano fisíco, estão sujeitos a se comportar como nós fazemos aqui na terra. A visão antropomórfica das potestades divinas exemplifica bem o que estou dizendo. Desde as mitologias antigas, como a Grécia para ficarmos no exemplo mais representativo, que os deuses possuem aspectos físicos humano e são dotados das mesmas virtudes e defeitos morais que nós também possuímos. Jeová ou Javé para os hebreus não é ao mesmo tempo um Deus misericordioso, bondoso, podendo ser irascível e implacável em sua punição e justiça? Bom, se avançamos muito nesses conceitos ao longo da evolução da humanidade, ainda incorporamos, posso assim dizer, resquícios que os lembram nas expectativas que geramos em relação ao comportamento da espiritualidade e seu interrelacionamento conosco.
Vejo muitos umbandistas acreditarem que os Orixás e as entidades devem apresentar um comportamento dentro dos padrões estabelecidos pelas formas ritualísticas da religião. Se o modelo pré-estabelecido na cabeça das pessoas para que tal relação ocorra não for seguido, o contato e a resposta do mundo espiritual não será de acordo, pior não existirá, ou terá como retorno desequilíbrio, impedimentos e consequências maiores para o infrator a regra.
Um exemplo, bem simplório do que estou querendo dizer, são as cores das velas que são acesas. Se uma cor é pré-estabelecida no imaginário coletivo para uma entidade, uma falange, linha ou Orixá; acender outra cor pode ser entendido por muitos como errado, falta de orientação, desconhecimento, chegando as raias de um ato de heresia ou de uma falta grave. Para estes, jamais o motivo pelo qual uma pessoa acendeu a vela de cor considerada "errada" será o fato dela não ter a vela da cor adequada ou o meio/dinheiro para consegui-la. Outra coisa que não passa na cabeça dessas pessoas é que a entidade ou o mundo espiritual talvez, nem esteja aí para a cor da vela, e o que importe de verdade para eles é a intenção, o bom pensamento, a força mental (concentração) e a fé de quem acendeu.
Para mim é fato que o mundo espiritual está preparado o tempo todo para lidar, trabalhar e fazer as coisas acontecerem com o que está sendo colocado a sua disposição, mesmo que as condições não sejam as ideais, adequadas, politicamente corretas e estejam cumprindo os padrões das normas rito-litúrgicas. Importante é o trabalho a ser feito e os resultados possíveis de serem alcançados.
Evidente que isso não significa que eu esteja fazendo apologia a liberação geral, tipo as coisas poderem ser feitas de qualquer jeito, a quebra todas as normas rito-litúrgicas e de não se adotar regras ou cultivar a disciplina. Claro que não prego a anarquia e o caos. Para mim equilíbrio, harmonia, regras e disciplina são indispensáveis, principalmente quando se trata de coletividade e grupos de seres humanos sejam de caráter religioso ou não.
Apenas, acredito que se por um lado, tudo isso seja de vital importância para fomentar a boa convivência, o bom comportamento, gerar ordem, o bom nível nas relações interpessoais, sociais e religiosas, reiterando ainda, que o mundo espiritual respeita e incentiva as regras, o mínimo de ordem e disciplina; por outro lado, a espiritualidade não está sujeita a elas a tal ponto, que o resultados de seus trabalhos sejam comprometidos por possíveis engessamentos impostos por nossas leis, ou aquilo que entendemos e acatamos como normas vigentes padronizadas para boa prática religiosa.
Voltando ao exemplo das velas, não é porque a cor esteja errada que ao se acender e fazer o pedido este deixará de ser atendido. Isto é óbvio, ou pelo menos deveria ser.
A Umbanda é simples defendem muitos. Então porque cercá-la de tanta complexidade? Por que tanto culto a forma, a padrões, regras, impedimentos (preceitos) e exigências rito-litúrgicas? Muitos buscam na necessidade de uma codificação a solução para proporcionar o mesmo patamar ocupadas por outras religiões e para o caos que consideram a diversidade umbandista. Se é que aceitam existir tal diversidade e não reconheçam apenas como verdade para a Umbanda um purismo doutrinário, defendendo e desejando que seja realizada uma limpeza de tudo que remeta as tradições religiosas africanas, por exemplo. O sincretismo com o Catolicismo e o Espiritismo é visto com naturalidade, ou melhor ajuda o status quo pela aproximação com religiões que já são bem vistas e aceitas na sociedade, proporcionando assim uma assepsia e um clima rito-litúrgico "higiênico" (sic) a Umbanda.
No meu entendimento esquecem a essência e o sentido de existir dessa diversidade, ou seja, a da Umbanda abarcadora de consciências. Consciências essas plurais, diversas, multifacetadas e de infinitos níveis de entendimento. Por isso, sempre as pessoas encontram um terreiro que se afinizem, e também como se diz, cada coletividade umbandista tem o Pai/Mãe-de-Santo que merece. Em outras palavras sacerdotes e sacerdotisas que atendam as expectativas dos adeptos dessa coletividade.
Volto a dizer, não é que tudo seja permitido e cabível acontecer em nome da diversidade e da tolerância religiosa. Existe com certeza muita coisa errada, diversos tipos de abusos a lei espiritual e dos homens, violentação de consciências, exploração, para não falar das situações de humilhação, vergonha e constrangimento a que são submetidos aqueles vitimados pela arrogância, o orgulho, a vaidade e a prepotência de seus ascendentes hieráquicos. Para estas ocorrências sendo de excrescências ou não, continuarei sempre que for possível e necessário combatendo, desmascarando e desmistificando através uma crítica contínua e severa.
Apenas acho de suma importância que cada vez mais exercitemos a prática de visualizarmos o contexto de uma situação antes de visceralmente criticá-la, tolerar o diferente que não estou conseguindo entender no momento, e respeitar plenamente o livre-arbítrio alheio e seu direito inalienável de tanto fazer o certo e como o errado.
Importante, que façamos a parte que nos cabe, e é claro que nos cabe apontar caminhos, facilitar vivências positivas e analisar criticamente situações erradas, mas sempre as situações e não as pessoas. Afinal, ao indicarmos um dos vários caminhos certos a seguir, temos que ensinar quais seriam as estradas erradas e tortuosas, as possíveis armadilhas desses caminhos, deixando claro as pessoas o seu livre direito de escolha.
Como sacerdotes somos sempre facilitadores. Bato insistentemente nesta tecla, não somos reis, imperadores, soberanos, donos das verdades absolutas, maiores do que ninguém. Ao contrário do que se pensa, ser um sacerdote ou sacerdotisa, antes de estarmos investidos de algum "poder" sobre as pessoas e o mundo espiritual, o que não é e nunca foi verdade, nós conquistamos poderosos deveres e altas responsabilidades com as pessoas e principalmente com a espiritualidade que deposita sobre nós a sua confiança e o aporte espiritual temporário. Sim, confiança e aporte espiritual temporário, pois a duração destes será o tempo em que sejamos fiéis aos compromissos assumidos na nossa consagração sacerdotal.
Eric Hobsbawm, historiador marxista, escreveu um livro que lhe trouxe imenso prestígio intitulado "Era dos Extremos: o Breve Século XX".
"Talvez o maior mérito do livro A era dos extremos de Hobsbawm seja transmitir uma forte impressão do tamanho da catástrofe humana que foi o século XX. Catástrofe em relação às mortandades gigantescas, sem equiparação possível com qualquer período histórico anterior. Catástrofe em relação à desvalorização do indivíduo, ao qual, durante longos momentos do século, foram negados todos os direitos humanos e civis, que haviam sido arduamente conquistados durante o ‘longo século’ precedente: 1789-1914.
Aliás, a impressão de catástrofe é forte justamente porque o período histórico anterior se marcara em todas as mentes como o século que colocara a idéia do progresso como inevitabilidade, não só em termos materiais, mas também em relação ao avanço das liberdades, apesar das monarquias e das forças conservadoras, que resistiam tenazmente desde a Revolução Francesa.
Hobsbawm incita à colocação de uma pergunta, que seu livro não consegue responder: como foi possível chegar a isso? Como foi possível descer tanto na escala da civilização, apesar de uma vitória tão gigantesca para as forças progressistas como a Revolução Russa de 1917? Hobsbawm não pretendia mesmo responder a tudo. Mas incitar o leitor a se fazer perguntas dolorosas já é um mérito inestimável"
(1).
Continuamos a viver em uma era de extremos, em pleno século XXI!
No campo religioso, vemos o crescimento exponencial das religiões neo-pentecostais, com sua teologia da prosperidade, o poder do carisma e a sanha de ataque a tudo que não esteja alinhado aos seus valores e doutrinas.
O fundamentalismo e o fanatismo religioso grassa e traz profundos prejuízos, por exemplo a religião islâmica que nada tem haver com os excessos tresloucados dos grupos terroristas que travestem seus objetivos políticos e econômicos de um "jihad" pérfido e invertido, Jihad este que nada tem haver com o verdadeiro significado da expressão (2).
A Igreja católica enfrenta atualmente sérios problemas internos e externos com a proporção que o volume das acusações de sacerdotes envolvidos em escândalos sexuais tomou conta da mídia e da opinião pública .
A Umbanda que está muito distante ainda do tamanho, da expressividade, do poderio sócio-ecônomico e político das religiões citadas anteriormente, parece viver na idade média, no querer de muitos que dela fazem parte. Temos a fragmentada nação umbandista dividida em feudos, em que os barões das terras tentam a qualquer custo manter seus domínios e o pagamento dos tributos que lhes são devidos pela plebe.
A ditadura da forma é uma das muitas armas dos déspotas e senhores todos-poderosos de suas próprias "umbandas". Com ela se mantém os adeptos na linha, uniformemente ordenados, sob o jugo de uma disciplina espartana e um engessamento doutrinário, dogmático que não permite constestação. Pensar e raciocinar exclui automaticamente o adepto do grupo. Em grupos assim literalmente o sacerdote vive da religião e não para religião.
Sim, vivemos em uma era de extremos, mas acredito estarmos chegando a um ponto de exaustão. Quando este momento chegar, nada de revoluções ou choques codificadores. A democracia da essência, que já vem realizando silenciosamente o seu trabalho em muitos terreiros por este Brasil afora, terá preparado todos os que escutaram o chamado de seus deveres e responsabilidades para com a religião, ocuparem os espaços vazios deixados pelos ditadores da forma.
Ao contrário da forma a essência representa a inclusão, a formação das consciências, fomentação do desenvolvimento espiritual de acordo com os planos e os objetivos da Corrente Astral Superior de Umbanda, pois estamos falando da ação da Sabedoria e Amor Cósmico. O que é hoje apenas uma ideação, a medida que mantemos o nosso foco constante no viver para a religião, vai se transmutando em verdade em nossas vidas e nos alçando a degraus inimagináveis da escalada da alma.
Se tudo isso já não bastasse para uma reflexão profunda e um posicionamento de ação á favor de tudo que a essência representa, coloco as coisas de uma forma mais rasteira. Prefiro dormir todas as noites o sono dos justos, colocar a minha cabeça no travesseiro com a consciência tranquila, que ter que dormir com um olho aberto temendo o punhal do traidor nas minhas costas que deseja o pretenso poder que possuo, final da maioria dos ditadores na história, se é que vocês me entendem.

Bibliografia:

(1) Excerto da resenha de Vito Elitízia. Acessado em 9/5/2010 em:
http://www.oolhodahistoria.ufba.br/o2vitor.html
(2) "Jihad, (...) é um conceito essencial da religião islâmica. Pode ser entendida como uma luta, mediante vontade pessoal, de se buscar e conquistar a fé perfeita. Ao contrário do que muitos pensam, jihad não significa "Guerra Santa", nome dado pelos europeus às lutas religiosas na Idade Média (por exemplo: Cruzadas). Aquele que segue a Jihad é conhecido como Mujahid.
A explicação quanto as duas formas de Jihad não está presente no Alcorão, mas sim nos ditos do Profeta Muhammad: Uma, a "Jihad Maior", é descrita como uma luta do indivíduo consigo mesmo, pelo domínio da alma; e a outra: a "Jihad Menor", é descrita como um esforço que os muçulmanos fazem para levar a mensagem do Islã aos que não têm ciência da mesma (ou seja, daqueles que não se submetem à divindade islâmica e ao seu conceito religioso de paz)". Acessado em 9/5/2010 em:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jihad

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1 Comentários:

Blogger Marcia disse...

Pai Caio em a “Ditadura da Forma e a Democracia da Essência” aborda, com competência e brilhantismo, a capacidade singular da Umbanda em permear o múltiplo cenário sócio-cultural brasileiro.
Fomenta a reflexão sobre a “Dogmatização da Umbanda” que a afastaria de sua vocação natural: plural, flexivel e capaz de ajustar-se às múltiplas singularidades que a buscam.
Sem personalismo e com simplicidade, evoca o papel do sacerdote enquanto “facilitador”, traçando um caminho rumo ao altruísmo, via concreta de crescimento humano.
Ao estimular o livre-pensar, sublinha o equívoco da “ditadura da forma”, põe em relêvo, o Saber, o Amor e a Ação Divinos, como direcionadores essenciais da Umbanda: inclusiva, democrática, veículo de progresso para o Homem.
A Umbanda não se resume à postura maniqueísta “certo/errado, “bom/ mau”; nela não há lugar para sofismas ou paralogismos, não é limitável, transcende a lógica mediata.
Umbanda é Amor ,é Consciência Cósmica, é autêntica, é plural em sua Unidade.

Um abraço fraterno,
Mãe Marcia D’Oya

7:31 PM  

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