segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Resposta da CCIR ao Cônsul do Haiti.

A
Vossa Excelência
Sr. Samuel Antoine
Cônsul Geral do Haiti
Os sentimentos de revolta e indignação são poucos para expressar a real sensação dos religiosos brasileiros. Sim, Excelência! Muito poucos.
Primeiro, queremos saber a que “Deus” o senhor atribui a tragédia ocorrida em seu país. É vergonhoso que o senhor afirme que a “macumba” e a “maldição de africanos” sejam fatores para a ocorrência de uma tragédia como esta que assolou o Haiti.
Excelência, sua postura é incompatível com alguém que se diz desolado com uma catástrofe que atinge o país que há 35 anos paga o seu salário – com todas as vantagens relativas a representação internacional – acreditando que o senhor é, no mínimo, capaz de – diplomaticamente! – manter relações políticas e institucionais com o Governo e o povo do Brasil.
Em segundo lugar, não poderíamos esperar coisa muito diferente de Vossa Excelência. Pelas entrevistas que o senhor concedeu à imprensa brasileira - pedindo desculpas pela forma grosseira, racista e intolerante a qual se referiu ao seu próprio povo - o senhor revelou que descende de uma família que governou o Haiti no século XIV.
Não é difícil deduzir que sua ascendência é de uma família escravista, que durante séculos torturou seres humanos e enriqueceu explorando a mão-de-obra deste mesmo povo. Portanto, o senhor traz em sua estirpe “tão elevada” a mancha dos sofrimentos impostos ao povo haitiano. Se o senhor fosse uma pessoa de princípios (?!?!) teria desenvolvido algum tipo de “culpa social”, que mesmo sendo um motivo rasteiro e pouco nobre, serviria para que o senhor – de verdade! – se mobilizasse em prol da população haitiana. Mas, ao contrário, nos parece que o senhor gostaria muito que os “africanos amaldiçoados, que mexem com macumba” voltassem a ser escravos dos representantes do seu país... Talvez isso explique a sua frase “A desgraça de lá está sendo uma boa pra gente, fica conhecido”.
Em terceiro lugar, a “macumba” a qual o senhor se refere é a característica cultural mais acentuada do Haiti. É claro que a sua ignorância em relação ao seu povo é totalmente explicada: o senhor vive há 35 anos no Brasil e nem mesmo aprendeu a falar o português. Então, nós vamos explicar – sem desenhos! – um pouco sobre a religião do seu povo.
O Vodu, Excelência, é a marca do Haiti que mesmo a colonização e a escravidão não apagou.
O Vodu, do ponto de vista religioso, foi o que sustentou a luta pela independência do seu país e funciona como resistência cultural desses milhares de homens, mulheres e crianças que – hoje - choram seus mortos e sentem fome.
É triste – para não usarmos o mesmo palavrão que o senhor utilizou para se referir aos “lugares que têm africanos” - que nós, brasileiros, descendentes e produtos da força de trabalho, da cultura e da religiosidade africanas tenhamos que conviver com um ser humano do seu tipo.
Não somos amaldiçoados, NÃO! Excelência.
Ao contrário do senhor, nos orgulhamos de nossas origens. E da resistência que nos foi ensinada por nossos antepassados.
Comissão de Combate à Intolerância Religiosa
Tel: 21.22327077 / 22733974 / 92905933
Rosiane Rodrigues (Assessora de Imprensa da CCIR)

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