terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Revirando os esqueletos do armário (Tema II)

Carnaval, reinado de Momo ou das Sombras?

O Carnaval sempre tem sido uma época encarada por muitos umbandistas como um período de sombras e escuridão espiritual. Em outras palavras, grassam em nosso meio inúmeras teorias que, invariavelmente, remetem esta época para entrega total do plano físico as hostes infernais (sic).

Cresci dentro do movimento umbandista, acreditando, por exemplo, que no Carnaval as entidades espirituais, nossos guias, não comparecem ao plano terrestre, deixando livre o caminho para os seres espirituais de níveis mais densos, atrasados, oriundos das zonas das sombras, da escuridão e das trevas.

Justificavam-se assim, os desregramentos de toda ordem, a libertinagem, a esbórnia que corre célere, a anarquia e os tumultos. Foram mais longe os que assim me explicaram, que se as pessoas bem entendessem o significado do Carnaval, o perigo que espiritualmente ele representa, não colocaria os pés fora de casa, quanto mais abrir as portas das residências nesses dias de sombras.

Aprendi que os Orixás não se fazem presentes a órbita planetária e a possibilidade de incorporação mediúnica é nula, pois também as entidades não comparecessem a orbe para esse propósito. São dias, que devem ser exclusivamente dedicados ao ato de vigiar e orar, de total recolhimento espiritual, e que antes do seu início procuremos nos resguardar apropriadamente, cumprindo nossas obrigações espirituais, realizando os ritos propiciatórios de harmonização, de equilíbrio, defesa e proteção.

Importante ressaltar, que essa visão do Carnaval é compartilhada por muitas religiões e algumas correntes espiritualistas, seja no todo, em parte, de forma mais radical ou moderada.

Bom, durante anos da minha jornada umbandista vivi e convivi com esses ensinamentos, assombrado com esses perigos e buscando a cada ano me esmerar na defesa dos meus entes queridos e na minha própria proteção.

O tempo passou, muita água rolou por baixo da ponte da minha vida, os moinhos se movimentaram e hoje resolvi retirar mais um esqueleto do armário, sacudir o pó acumulado e olhá-lo de frente sob a luz da razão, calcado na lógica e respaldado pela maturidade dos conhecimentos adquiridos até então.

Em uma pesquisa rápida na internet, encontrei um artigo publicado no "Jornal dos Amigos-Amizade sem Fronteiras", jornal virtual de orientação evangélica, onde encontrei um relato coerente para origem do Carnaval.

"A origem do Carnaval

Por Luiz Roberto Bendia

Fonte: pesquisa na Internet e estudo bíblico

A origem do Carnaval é indefinida. Por vários anos, grandes historiadores tentaram encontrar sua origem, dentro e fora do Brasil. Alguns relacionam o começo das festas carnavalescas com os cultos feitos pelos antigos para louvar uma boa colheita agrária. Outros historiadores dizem que seu início teria acontecido mais tarde, no Egito, com danças, festas e pessoas mascaradas.

Fazem ainda alusão aos povos pagãos antigos, que homenageavam seus deuses greco-romanos em grandes festas. Entre elas, existiam as saturnias (para o deus Saturno) e os bacanais (para o deus Baco, na mitologia romana, conhecido também como Dionísio, na mitologia grega). Essas comemorações, geralmente realizadas em novembro e dezembro, eram regadas a muito vinho e com direito a orgias diversas.

Segundo relata o estudioso e pesquisador Hiram Araújo em seu livro "Carnaval", a origem das festas carnavalescas não tem como ser precisamente estabelecida, talvez possa ser ligada aos cultos agrários, às festas egípcias e, mais tarde ao culto a Dionísio, ritual que acontecia na Grécia, entre os anos 605 e 527 a.C. O certo é que a dança, os festejos, os cânticos e a celebração, sempre estiveram presentes na vida e na evolução dos homens e das sociedades.

Nos primeiros séculos a Igreja Católica não tinha expressão dentro do mundo greco-romano. Somente no século 4, o imperador Constantino publica o "Edito de Milão" (313 d.C.), que torna o catolicismo a religião oficial do Império e proíbe a perseguição de cristãos. A partir do século 4 então, a Igreja cria uma estrutura mais forte e elabora um cronograma oficial para as festas litúrgicas – Natal, Quaresma e Páscoa – dentro do calendário Juliano.

Como a Igreja pautava-se nos padrões éticos e morais, não permitia uma série de coisas na Quaresma, como a realização de bacanais e saturnias. Então, as pessoas passaram a aproveitar o último dia antes do início da Quaresma para fazer tudo a que tinham direito. O carnaval é realizado justamente neste período e remonta as características das festas pagãs.

No Brasil a origem do carnaval não é menos controversa. Alguns baseiam-se na festa feita pelo povo para receber a Família Real no Brasil como o marco zero do carnaval, outros já citam o aparecimento dos primeiros cordões, no início dos anos 20, como o surgimento do que mais se aproxima do carnaval de hoje.

Sobre a origem da palavra carnaval, vários estudiosos já tentaram explicar. Entre as aceitas está "carnelevale", do dialeto milanês, que significa tempo em que se tira o uso da carne. Outros informam que as raízes do termo se constitui em objeto de discussão, e que o vocábulo pode advir da expressão latina "carrum novalis" (carro naval), uma espécie de carro alegórico em forma de barco, com o qual os romanos inauguravam suas comemorações.

O Carnaval é propriamente a noite anterior à "Quarta-feira de Cinzas", quando começa o período de abstenção de carne por parte dos católicos romanos".

Na seqüência o autor do texto encerra seu artigo com o tom evangélico característico sobre o assunto, o que somente vem corroborar o que eu disse anteriormente, com respeito a visão compartilhada das religiões e correntes espiritualistas (que são convergentes em relação ao perigo que o Carnaval representa, mas não são iguais em suas explicações e visões interpretativas) .

"Biblicamente há uma grande expressão para o Carnaval na vontade do povo em crucificar Cristo Jesus. A partir do momento em que Pilatos decidiu lavar às mãos, que pela vontade do povo permitiu trocar a morte de Barrabás pela morte de Jesus, uma grande folia se instalou pelas ruas de Roma. Espiritualmente o Carnaval significa apoio às forças de Satanás. O desfile das escolas de samba na Marquês de Sapucaí - Rio de Janeiro, por exemplo, é do jeitinho como o diabo gosta!!!"

O que percebemos pelo texto, abstraindo é claro este parágrafo final, é que ao longo da história da humanidade, as diversas sociedades criaram seus momentos de extravasamento coletivo, seja para agradecer uma boa colheita, festejar ou comemorar alguma coisa; seja para se manifestar, protestar ou se libertar, mesmo que por um curto período, das amarras sociais, religiosas e morais vigentes em cada época.

Independente de valorarmos como certo ou errado esses atos coletivos, já que para isso teríamos que ter um profundo conhecimento de causa de cada situação, é fato que não podemos ser reducionistas ao ponto de imputar a todos esses eventos históricos um fio condutor, que remeta simplesmente a manifestação das hostes infernais e "apoio ás forças de satánas" (sic).

Do agradecimento pela boa colheita (festas agrárias), passando pelo Egito, os festivais pagãos, as saturnias etc., não é possível produzir uma ligação plausível entre o que movia a realização dessas festas na Idade Antiga, com o que se desenvolveu ao longo do séc. XX, no Brasil por exemplo, culminando no tão famigerado Carnaval.

Em outro artigo publicado na net, nos deparamos com um resumo da história do carnaval brasileiro. Nele Daniel Perdigão Nass relata o seguinte:

"(...)
A primeira folia de carnaval do Brasil foi o entrudo, que acontecia já no início do período colonial. O entrudo era uma brincadeira violenta, que consistia em atirar baldes d'água, balões cheios de vinagre ou groselha, e pós como cal e farinha, com a intenção de molhar ou sujar as pessoas que passavam pelos foliões. A brincadeira foi proibida inúmeras vezes, mas ela só desapareceu no início do século 20, com a popularização do confete.

O entrudo incentivou a criação de uma festa em local fechado, para um público selecionado, que queria se divertir civilizadamente. Assim, surgiram em 1840 os bailes de carnaval, inspirados nos grandes bailes de máscaras realizados na Europa.

(...)

Os tambores apareceram pela primeira vez na metade do século 19, no chamado zé-pereira, uma espécie de passeata de foliões que ocorria nas ruas do Rio de Janeiro.

O zé-pereira desapareceu meio século depois, ficando em seu lugar o corso, um passeio de carros e caminhões enfeitados. Os foliões, geralmente famílias em seus veículos, brincavam com as pessoas nas calçadas, cantando músicas de carnaval e jogando confetes uns nos outros. O corso desapareceu na década de 1930 (...).

A organização da folia surgiu no Rio com as grandes sociedades. Esses clubes de foliões, surgidos na década de 1850, tiveram o seu auge de popularidade no fim daquele século. (...).

Os ranchos ou cordões, outro dos vários tipos de festejo do início do século 20, tiveram sua origem no folclórico Reisado baiano, encenação de uma caminhada de pastores e pastoras até Belém. Durante essa caminhada, os participantes cantavam e batiam de porta em porta pedindo agasalhos. Os Reisados tinham como uma de suas principais qualidades a beleza e o luxo de suas fantasias. Os ranchos cariocas não ficaram atrás, eram muito organizados e evoluídos. As velhas marchinhas de carnaval se popularizavam ao serem cantadas pelos ranchos, numa época em que ainda não havia rádio.

As escolas de samba também têm origem na cidade do Rio de Janeiro. Em boa parte, tinham como origem os ranchos, e deles veio a tradição, por exemplo, do casal de mestre-sala e porta-bandeira. O primeiro grupo a ser criado com o título de "escola de samba" foi o Deixa Falar, em 1928 no bairro do Estácio. (...)

Os desfiles das escolas caíram logo no gosto popular. A praça Onze se tornou pequena para abrigar a quantidade cada vez maior de foliões e de público, e as escolas passaram a desfilar nas avenidas do centro do Rio nos anos 70. (...)

Os desfiles tornaram-se praticamente sinônimo de carnaval no centro-sul do Brasil.

No Nordeste, as festas mais populares do carnaval são as de rua. Na Bahia, o trio elétrico, criado em 1950 pelo lendário Dodô e agora espalhado por todo o país, e em Pernambuco, a dança dos blocos de frevo. Foi assim, com tanta gente participando das folias, que o carnaval brasileiro se tornou o maior e mais conhecido do mundo".


O carnaval brasileiro como Daniel Nass escreve: "(...) é uma festa popular de características regionais próprias, mas que quase sempre incluem folias, diversões, bailes, fantasias e música".

O que constatamos como cerne do Carnaval são a alegria e a brincadeira coletiva, ou seja, a pura manifestação da folia no bom sentido.


Outro fator, que deve ser levado em consideração, é a vinculação definitiva ao Carnaval do complexo industrial e comercial que se forma em torno desse período festivo e para garantir o sucesso (infra-estrutura, logística, produtos e serviços) desses dias de folia. Tem a sua relevância o que isso movimenta em recursos, gerando empregos diretos e indiretos, negócios formais e informais, além das contribuições culturais, sociais, de lazer e do turismo interno e externo.

Partindo do princípio que não são apenas dois artigos na net, pinçados ao acaso, que conseguem fechar questão sobre o Carnaval, seus imbricamentos históricos, as relevâncias das questões sociais, religiosas e da contextualização moral nele inseridos, resta-nos então realizar uma ilação própria sobre o assunto.

A licenciosidade, a permissividade, a libidinosidade, a violência, os assaltos, furtos, as bebedeiras, os acidentes e mortes no trânsito, os assassínios, a exploração sexual, a prostituição, o consumo de drogas etc., existentes no Carnaval, não são de forma nenhuma diferentes dos que acontecem no restante dos outros dias do ano. Por conta da multidão de foliões em todo o país, do período fugir completamente a rotina pragmática da luta pela sobrevivência (feriado prolongado) e do foco da mídia a tudo que acontece nessa época, é que talvez nos salte aos olhos essas tristes e lamentáveis realidades.

Não é o Carnaval, que provoca essas coisas. O buraco, como dizem, é mais embaixo e está circunscrito, na minha opinião particular, na deturpação do valores morais da sociedade, a falta de ética, de educação, de disciplina e de limites do ser humano. Na incapacidade dos organismos governamentais de formar o cidadão e das instituições religiosas de imprimir valores espirituais perenes no indivíduo, transformando-o em um cidadão planetário cônscio de seus deveres e responsabilidades para com a vida física e espiritual. Na fragilidade da célula familiar, ora vítima das incapacidades anteriores, ora geradora desses processos degradantes.

Por essas e outras, que não posso mais aceitar o reinado de Momo, como um reinado das Sombras. Como um período escolhido para se soltar os demônios e deixá-los andar livres pela terra como querem alguns.

Aos processos obsessivos, ações e reações negativas, das sombras, da escuridão e mesmo das trevas, estamos sujeitos a todo o tempo e hora, bastando para isso que nos faltem a vigilância, o equilíbrio e a previdência.

É falacioso, acreditarmos que o mundo espiritual superior também esteja sujeito a invigilância, ao desequilíbrio e a imprevidência, de forma proposital, no intuito de nos deixar entregues a própria sorte, apenas por constatar que é o nosso desejo vivermos esse momento único. Pior ainda, acreditarmos que exista um tratado formal ou informal de não-interferência no período carnavalesco, entre o mundo superior e as hostes infernais (Argh! Já ouvi esse tipo de barbaridade.), ou que exista outro motivo qualquer, seja este motivo mais uma história da carochinha, seja uma teoria qualquer, mas bem fundamentada, que alguém porventura inventou para justificar tal situação .

Mesmo, que essa inverdade fosse factível, a Lei Universal e Divina reza, que basta buscarmos a sintonia correta e a conexão instantaneamente será concretizada. Na verdade, o nosso problema é que às vezes, preferimos ligar nossos "plugs" de sintonia em tomadas de prazer sem limites, de sentimentos desequilibrados, de emoções desregradas e de instintos primitivos.

Esta é uma escolha única e exclusivamente nossa, abusarmos do nosso livre-arbítrio, na insistência, quais crianças birrentas, em desequilibrarmos as Leis Universais em vez de utilizá-las para o nosso auto-conhecimento e auto-transformação.

Desta forma, cai por terra o mito de que não é possível o exercício mediúnico no carnaval, pela ausência de entidades espirituais para incorporação. Respeitando-se as normais gerais da boa prática mediúnica, as condições necessárias para geração da harmonização, equilíbrio e proteção ambiental dos presentes, sempre imbuídos de propósito e objetivo justos, não vejo o por que não existir o aporte da espiritualidade. Por efeito dominó se pulverizam todos os impedimentos para as realizações rito-litúrgicas, bastando que se respeite o alicerce básico que deve vigorar não só para o Carnaval, mas para todos os 365 dias do ano: a prática do bem, do amor e da caridade.

Tanto é verdade, que estes impedimentos são mitos falaciosos - já que regra deveria ser regra, independente dos motivos de ordem superior e do cargo hierárquico que a pessoa ocupa na religião - que na contramão do que foi listado no parágrafo anterior como premissas básicas para prática mediúnica e rito-litúrgica no Carnaval, já vi dirigentes de terreiro abrindo uma gira particular (incorporando), porque não podiam dispensar o valor monetário ($$$) da consulta. A explicação sempre remete a necessidade premente de garantir a sobrevivência... É o velho ditado, que volta e meia é usado como desculpa: "Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço! (ridículo, para não dizer vergonhoso)

Por outro lado, a Idade Média, por exemplo, já nos comprovou que não é através da imposição, do medo, da cristalização de dogmas, das penas e gozos eternos e da cantilena de rezas e orações decoradas, que dirigentes religiosos conseguirão o tão almejado upgrade espiritual do mundo (a bem da verdade esses são poucos, a maioria deseja que a sua religião detenha a "verdade" absoluta, ou se não for possível, no mínimo, que consigam se manter encastelados no tal do "púder" (poder), como diz um grande amigo meu). Aos dirigentes umbandistas, eu sempre repito, os sacerdotes e sacerdotisas nada mais são que facilitadores no processo de auto-competência e independência espiritual daqueles, que se colocam sob sua tutela, logo não se pode esquecer os deveres e responsabilidades para com estes.

Aos diletos pupilos, cabe sempre cumprir de forma equilibrada as obrigações espirituais das suas consciências, independente do imposto pelo calendário histórico-religioso e os impedimentos correlatos. Mais importante que estar cumprindo uma obrigação por rotina, ou obedecendo um impedimento por tradição é estar inteiro naquilo que se faz, ou seja, estar plenamente consciente do processo em si, seus deveres, responsabilidades e conseqüências, sejam elas quais forem. Lembrem-se, certo e errado são relativos, já o equilíbrio, a harmonia, o caminho do meio, como reza o Budismo, a prática do bem, do amor e da caridade, ensinada na Umbanda, a boa luta, como algumas correntes espiritualistas preconizam, são estradas seguras e perenes para o desenvolvimento espiritual de todos.

Quanto ao Carnaval? Deixemos os foliões responsáveis e educados, que têm apenas o próposito de extravasarem sua alegria, brincarem em paz. Encaremos definitivamente o lado obscuro e "infernal" do Carnaval, que nos choca e amedronta tanto, como um instantâneo, um flash mais demorado, uma fotografia da vergonhosa realidade, que passivamente assistimos e permitimos que aconteça durante os demais dias do ano.

Chego ao final deste artigo revirando mais um esqueleto e dando o destino que ele merece, ou seja, fora do meu armário!

Bibliografia:
a) BENDIA, Luís Roberto. A Origem do Carnaval. Publicado na edição on-line do Jornal dos Amigos - Amizade sem Fronteiras de Belo Horizonte/MG no dia 03/06/2006. Acessado no dia 23/02/2009 às 23h em: http://www.jornaldosamigos.com.br/origem_carnaval.htm .

b) NASS, Daniel Perdigão. A História do Carnaval Brasileiro. Publicado na edição No. 17 da Revista Eletrônica de Ciências de São Carlos/SP de março/2003. Acessado 23/02/2009 às 23h
em: http://www.cdcc.usp.br/ciencia/artigos/art_17/carnaval.html.

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