quinta-feira, 28 de junho de 2007

Revirando os esqueletos do armário! (Tema I)

"SANTO (ORIXÁ) É EVOLUÇÃO!"
Existe uma polêmica resistente nos meios da psicologia e até mesmo da sociologia sobre a questão de que o somos produto ou resultado do meio em que vivemos. Muitos defendem que nossa personalidade é formatada, pelas inferências sociais e psicológicas, que sofremos durante nosso dia-a-dia, principalmente no período da infância para adolescência.
Verdade, exageros ou discordâncias a parte, é fato que, em qualquer situação de nossas vidas, nos valemos de referenciais externos para formarmos nossa opinião, bem como, os nossos relacionamentos influenciam de alguma forma.
Assim, como na vida em geral, assim, como nos setores e áreas de nossos interesses e convivências, tais quais, o lado profissional, o religioso, o social, o familiar e o amoroso.
Como este blog é voltado para assuntos da religião e mais especificamente da Umbanda, vamos nos deter neste aspecto. Desta feita assimilamos paradigmas, assumimos posições e durante um bom tempo, ou até pela vida inteira, agimos e reagimos baseados em referências adquiridas, dogmas, crenças conscientes ou inconscientes e conclusões produzidas por ilações de motu proprio.
Essa nova série do Blog: "Revirando os esqueletos do armário", visa fazer uma releitura dos paradigmas e crenças, que fizeram o constructo da minha religiosidade.
Durante alguns anos da minha vivência na Umbanda, escutei a seguinte frase: "Santo (Orixá) é evolução".
Essa frase repetida muitas vezes, era pronunciada dentro do contexto, de que Umbanda sem Orixá e melhor ainda, sem o fundamento destes, sob a ótica dos cultos de nação, ou mesmo do Candomblé, era algo estático e que não permitia a evolução, dentro da própria religião do então umbandista.
Em outras palavras, a Umbanda evolutiva, a que proporcionaria um salto qualitativo, um upgrade no desenvolvimento do agora filho-de-santo, era aquela que envolvia em seu modus operandi e vivendi os fundamentos dos Orixás, de acordo com os ensinados nos cultos de nação, que envolvem camarinhas, feituras, saídas-de-santo etc.
É posto e é fato, que os Cultos de Nação e o Candomblé, de forma nobre e também progressiva, contribuem para evolução e o religare da fé de seus adeptos. Isto não está em discussão.
O problema surge é quando dirigentes umbandistas, adotam este discurso, para referendar o seu modo de praticar, ensinar e doutrinar na Umbanda.
Será que esta assertiva, no contexto acima explicitado, é verdade? Vejamos a luz da racionalidade e não do dogma e da imposição.
Não precisamos nos aprofundar muito, em teses e tratados, para derrubar esta assertiva. Basta lançarmos um olhar sobre a história, para que a lógica e bom senso prevaleçam.
No período pré-colonial existiam os povos indígenas, que em termos religiosos atingiu a nossa contemporaneidade com uma corruptela de seus ritos, denominados genericamente de Pajelança.
Com a chegada da era colonial e do processo escravagista, o povo africano desembarca em nosso continente, trazido a força pelos comerciantes de escravos em seus navios negreiros, como eram chamados.
Aqui recolhidos as senzalas, misturados sem nenhuma preocupação com etnia, língua ou dialeto e inclusive, não sendo respeitado afinidades familiares, sociais etc., tiveram que se adaptar as duras condições de existência em uma terra totalmente desconhecida.
Quando falamos em sincretismo religioso, devemos lembrar que os escravos tiveram no Brasil, mesmo que inconscientemente, realizar o seu próprio, tendo em vista a necessidade de perpetuar suas crenças, fé, ritos etc., independente das diferenciações que existiam em África.
Como maioria, a cultura yorubá/nagô, teve uma forte influência, e serviu para moldar ou gerar este amálgama religioso.
Inkices, Voduns e Orixás se transformaram em sinonímia, com estes últimos (Orixás) ganhando maior abrangência. Muito rapidamente, os Orixás tiveram que sofrer, para garantia de sobrevivência religiosa, um segundo sincretismo, agora devido ao Catolicismo (religião dominante e impositora), que foi a equivalência aos Santos Católicos pelo comparativo dos arquétipos, como hoje nos explica os estudiosos do assunto.
Como resultado de tudo isso, surge o Candomblé que de elementos díspares até, formatou-se para servir de molécula agregadora de toda uma situação religiosa, existente em África e que foi vilipendiada, em seus cultos originais pelass condições sub-humanas, que envolviam os escravos no Brasil.
Décadas e mais décadas separam a colônia e o império da posterior república, tendo como interstício, a Lei Áurea e a libertação dos escravos. Só de escravidão foram 300 anos.
Roger Bastide, eminente sociólogo francês, nos ensinou, que nos primórdios do Candomblé, já como uma religião instituída na Bahia, embora não oficialmente reconhecida a época, existia apenas o culto aos Orixás, sem manifestação alguma, do que é comumente chamado de eguns (espíritos que passaram por processos reencarnatórios).
Como é de domínio público, os Orixás incorporados ou bolados, como se diz no linguajar dos Cultos Afro-brasileiros, não se comunicam ou falam, apenas se manifestam e realizam suas danças ao sons do ilus ou atabaques tocados pelos alabês ou ogans. Como no início de tudo, eles continuaram sendo energias divinas ou potestades, que nunca tiveram passagem pelo Aiyê (Terra) como encarnados, vivem desde sempre no Òrun (mundo divino ou espiritual). Orixás, somente, se comunicam pelo oráculo ou jogo, seja o Ifá ou o de Búzios.
Na sequência histórica, aparecem os denominados Candomblés de Caboclo, com incorporação de entidades espirituais ou eguns, puxados pelos boiadeiros, por alguns Exus e Pombagiras e até mesmo, os Mestres de Jurema oriundos do Catimbó.
Algumas linhas de estudo imputam, que o surgimento dos Candomblés de Caboclo fomentou a sua migração para o que um dia, nos idos de 1908, foi denominado de Umbanda.
Para os umbandistas, está mais do que certo, a história é outra e está, intrinsicamente, ligada ao advento do Caboclo das Sete Encruzilhadas, da vida do seu médium Zélio Fernandino de Moraes e da sua família.
Desta forma, temos para nossa linha de raciocínio a seguinte sequência: os Orixás em primeiro lugar e depois as Entidades Espirituais ou eguns. O Candomblé, depois o Candomblé de Caboclo e na esteira da história a Umbanda.
Importante salientar que, nesta contemporaneidade, convivem ou conviveram e por isso influenciam ou influenciaram também a Pajelança, o Catimbó, o Xambá, o Toré, o Terecô, o Tambor de Minas, os Xangôs do Nordeste, entre outras.
Bom... A Umbanda surge ou ressurge (eu sou um dos que acredita na universalidade e ancestralidade da Umbanda), louvando aos Orixás, sem fundamentá-los em camarinhas, feituras, saídas-de-santo etc. Portanto, ela (a Umbanda) é que seria a novidade sobre o que estava até então posto como religiosidade afro-brasileira, indígena e outros segmentos correlatos ou corruptelas (Candomblé, Candomblés de Caboclo, Pajelança, Catimbó etc.) e não o contrário.
Desta forma, se os Orixás fundamentados, vamos assim se referir, vieram antes, eles não podem dar um pulo para frente na história e surgirem como salvaguarda de um processo evolutivo e revolucionário em algo, que surgiu ou ressurgiu posteriormente. Este novo (Umbanda) é que na lógica, poderia sim, realizar esse papel.
Se a Umbanda (res) surgiu, no século XX, para isso ou não, é discussão e polêmica para mais de metro, como se diz. Não é o meu intuito discutir isso aqui e agora. Mas é irracional, no mínimo, querer quebrar a cronologia dos fatos e se colocar o carro na frente dos bois, apenas no intuito de referendar as práticas e doutrinas pregadas em muitos terreiros, que se denominam de Umbanda, mas que no dia-a-dia de suas práxis são cultos de nação, candomblés disfarçados ou candomblés de caboclo mal elaborados.
Costuma-se, hoje em dia, realizar um enquadramento de todos esses tipos de manifestações, ditas umbandistas, no que comumente se denominou de diversidade.
A diversidade na Umbanda existe sim, mas está compartimentalizada em determinados padrões ou parâmetros doutrinários facilmente identificáveis, naquilo que denomino de Escolas. Para ficar no exemplo, cito como escolas entre outras tantas, a Umbanda Esotérica (que resgatou a ancestralidade da Umbanda), a Umbanda Iniciática (que ampliando o trabalho da escola esotérica, está proporcionando o sentido da universalidade da Umbanda) e a Umbanda Omoloko (que fazendo uma releitura dos cultos afro-brasileiros, caminha para um upgrade nesses ritos, catalizando-os para uma forma mais próxima a Umbanda, do que levando-os de volta aos seus ancestrais diretos, o Candomblé, o Candomblé de Caboclo e outros segmentos, como o Catimbó por exemplo).
O que me preocupa, nesse quadro, são os terreiros que vivem a situação de praticar os fundamentos de santo, no trato com os Orixás [por conta da beleza das vestes, das obrigações (camarinhas, feituras e demais ritos), sempre pagas com dinheiro, das festas (com as saídas-de-santo) sempre pomposas, verdadeiros cultos a vaidade e ao orgulho] e, no entanto, precisam também dos caboclos, pretos-velhos, crianças e exús, para gerar consultas e trabalhos, angariando com isso mais dinheiro ainda.
Geralmente, os enquadrados nessa situação se auto-denominam umbandomblés, ou mesmo se reconhecem como da Umbanda Omoloko, que destes casos passa ao largo. São esses mesmos, que um dia batiam uma Umbanda, como dizem alguns, pé-no-chão, branca ou simples e que decidiram mudar para agregar o fundamento dos Orixás, arranjando a desculpa da evolução para seus seguidores, e que hoje, taxam de catimbozinhos atrasados e de terreiros de fundo de quintal, o seu próprio passado. Porque, caridade e viver para Umbanda não traz dinheiro e nem produz os benefícios auridos de se viver da Umbanda.
Fico feliz, quando descubro que o Omoloko, tem em muitos páramos do Brasil, representantes dignos e que trabalham respeitando suas tradições, fundamentos e história. É bom ver a beleza de Cultos Afro-brasileiros, como o Candomblé, por exemplo, mantendo sua cultura religiosa intacta, fortalecendo a sua religiosidade. É gratificante, perceber como o movimento umbandista e muitos terreiros no Brasil e no mundo, tem trabalhado pelos objetivos superiores dentro da sua linha de atuação.
Óbvio ululante, que os Orixás, sejam eles tratados, com os fundamentos dos Cultos Afro-brasileiros ou com a ciência da Umbanda, serem reconhecidos como postetades e proporcionarem evolução, ou conduzirem o processo evolutivo de seus filhos.
Triste, é perceber a apropriação do alheio (fundamentos) para validar práticas questionáveis e com intenções, no mínimo, de interesses próprios, sejam eles financeiros, sejam produzidos pela vaidade, orgulho, prepotência e arrogância. Realmente, existem pessoas, que não conseguem caber dentro de si mesmas. São os desesperados, pela única causa válida na vida deles, ou seja, eles mesmos.
Tem gente que acredita, que a verdade existe, tem outras que se acham donos dela. Como também, existem os que acham que são Deus e outros, que tem certeza que o são.
Aos incautos, irmãos umbandistas, presos nesse tipo de armadilha consciencial, eu digo, estudem mais a sua religião, visitem outros terreiros, vejam o que está sendo feito e realizado até mesmo fora do seu Estado. Leiam mais, pesquisem e sobretudo reflitam, pensem e meditem, racionalizem a sua fé e questionem as suas crenças. Somente assim crescemos, amadurecemos e nos fortalecemos.
A Umbanda não precisa de fanáticos religiosos, nem tão pouco de seguidores de ególatras.
Ela precisa de gente sincera, de fé racional e praticantes do bem, do amor e da caridade.
Façam como eu, que não tenho medo de revirar os esqueletos no armário, jogá-los fora um a um e depois nem lembrar que um dia, aquela caveira sorriu para mim.

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terça-feira, 12 de junho de 2007

Fé demais não cheira bem!

Lembro-me muito bem do filme "Leap of Faith" (1992), traduzido no Brasil como "Fé demais não cheira bem".
Estrelado pelo ator Steve Martin, o roteiro tratava da vida de um pastor evangélico, que rodava o EUA com sua caravana, curando as pessoas e arrecadando muito dinheiro nas cidades em que parava.
O personagem de Steve Martin era um tremendo de um picareta, que junto com um grupo de assistentes montava um circo evangélico, dotado de muitas câmeras de vídeo, microfones embutidos e fones de ouvido, que possibilitavam saber com antecedência as necessidades das pessoas, que iam assisitir ao referido show do pastor. Muita coisa era armada para maravilhar as pessoas e com isso se ganhar dinheiro.
Um belo dia, no entanto, em uma pequena cidade do interior, um garoto paralítico dotado de muita fé se cura de verdade e diante deste milagre, que não estava planejado, o pastor cai na real e abandona tudo e a todos para repensar a sua vida e começar do zero novamente. Para completar, ao fugir da cidade começa a chover, outro milagre desejado por toda cidade, já que era uma coisa, que não acontecia há muitos anos.
Por outro lado, estou relendo um livrinho na sua 3a. edição de 1994 (171 páginas), mas que originalmente (1a. edição) foi lançado na década de 70, chamado "Segredos da Magia de Umbanda e Quimbanda" do digníssimo W. W. da Matta e Silva (Yapacani), publicado pela Livraria Freitas Bastos S.A. Nas suas páginas 35 a 49, Mestre Yapacani versa sobre "Quedas e Fracassos de Médiuns".
Interessante, percebermos que já naquela época, quando ainda a moeda no Brasil era o cruzeiro, existia uma voz, que distoante do senso comum do movimento umbandista, mas plenamente sintonizado com a Corrente Astral Superior de Umbanda, alertava a todos sobre este tema, que pelo visto é de conhecimento de muitos, mas ensinado, comentado e ressaltado por poucos. Nessas mais de duas décadas da minha vida umbandista, poucas vezes vi ensinamentos, palestras ou doutrinas em terreiros voltados para esse assunto.
Parece até que existe um pacto de silêncio, com objetivo de não causar melindres ou situações embaraçosas aos que porventura se sintam afetados. "Esses são assuntos áridos, sobre os quais todos se escusam de falar ou escrever e, quando o fazem, é por alto, indiretamente..." (Ibid. p. 35)
Bem, não é o caso deste blog. Não temos nenhum problema em olharmos para debaixo do tapete, retirarmos a sujeira que lá se esconde, declarar que ela existe e expormos a nossa opinião clara sobre ela.
Como o próprio Mestre Yapacani ensina no livro acima:
"Você tem uma "gota de luz"? Se a tem, precisa, já, derramá-la sobre os que ainda não possuem... Pois você deve saber que estamos no fim de um Ciclo onde a seleção, a escoimação ou o expurgo são condições já decidida pelas Hierarquias Superiores e você precisa cumprir a sua parte! Então, por que essa indiferença, se você sabe e tem meios de elucidar, doutrinar etc.? O que está esperando? A sua indiferença, o seu comodismo podem não ser conivência direta com o erro, com a exploração, mas talvez seja uma covardia espiritual... (...) O caso se resume nisso: - você, podendo, não faz, tendo para dar, não dá... Ah! Já sei... Você é apenas um acomodado, não quer contrariar ninguém... Pois sim - você será incomodado por outros lados... (...) Se você é desses que vivem lendo obras espiritualistas, esotéricas, espíritas e mesmo os Evangelhos, só para o seu "bem-estar", não se preocupando em elucidar, quando tem oportunidade, saiba que isso é uma forma de egoísmo muito prejudicial... A você mesmo. (...) Sim, não adianta pensar e procurar uma evasiva. Atente: - aquele que se inteira das grandes verdades pelas luzes que são próprias deve espalhá-las, deve reparti-las sempre que puder, sem que, com isso, queira apagar sozinho a "imensa fogueira do mundo"... Porém, dê seu "copo de água"..." (Ibid. p. 18-19)
Antes de adentrarmos nos principais motivos de quedas e fracassos dos médiuns, é sempre bom lembrar que por dissertarmos sobre este tema, não significa em hipótese alguma, acharmos que somos melhores que os outros, ou que estamos blindados contra estas situações. Ao contrário, oramos e vigiamos todos os dias de nossas vidas para que não sejamos tentados ou vitimados por tais agruras da alma.
Mestre Yapacani, considera três causas prováveis, principais e sérias de quedas e fracassos de médiuns: Vaidade, Dinheiro e Sexo.
Continuando com as palavras do insígne Mestre: "(...), situemos desde já, dentre os diversos meios pelos quais os médiuns têm fracassado, os três aspectos principais ou os três pontos-vitais que os precipitam nos abismos de uma queda mediúnica etc. Ei-los:
I - A vaidade excessiva, que causa o empolgamento e lança o médium nos maiores desatinos, abrindo os seus canais-medianímicos a toda sorte de influências negativas.
II - A ambição pelo dinheiro fácil, exaltada pelo interesse que ele identifica nos "filhos-de-fé" em o agradar, em o presentear, para pedir favores, trabalhos, pontos, afirmações etc., que envolvem elementos materiais.
III - A predisposição sensual incontida, que lhe obscurece a razão, dada a facilidade que encontra no meio do elemento feminino que gira em torno de si por interesses vários e que comumente se deixa fascinar pelo "cartaz" de médium-chefe... De "chefe-de-terreiro", babá etc."
(Ibid. p. 36-37)
Neste último caso, acrescentamos a atualidade de encontrarmos esta facilidade no meio de ambos os elementos, feminino/masculino (dependendo da orientação sexual do médium).
Em detrimento dessas situações serem válidas para quaisquer médiuns, o problema se agrava ainda mais quando os mesmos são Chefes-de-Terreiros, Babalorixás, Yalorixás, Sacerdotes e Sacerdotisas.
Como sempre repisamos, a responsabilidade inerente ao cargo é muito grande, pois sob as suas guaridas estão almas em evolução, cabendo a eles serem facilitadores deste processo e responsáveis diretos, muitas vezes por suas vitórias e fracassos, ascensões e quedas.
Importante, nesse ponto frisarmos, que acreditamos, em todos os casos acima citados, das causas de quedas e fracassos dos médiuns, que os mesmos de alguma forma possuem uma predisposição latente para uma delas, duas ou até todas elas, já que nesses casos, muitas vezes, uma causa puxa outra.

I - Vaidade

A vaidade excessiva, nem sempre aparece de cara. Ela vai se formando ao longo dos anos. Geralmente ela é mascarada por uma falsa apresentação de humildade, simplicidade e despreendimento material e até espiritual. Travestidos de uma capa de "ingenuidade" e sem problemas para demonstrar uma aparente ignorância, a sensação que obtemos ao entrarmos em contato com tais criaturas, é de que estamos diante de vítimas do destino, necessitados de ajuda, apoio e sustento. A princípio seu dom mediúnico é genuíno, sua entidade principal, seja ele quem for é legítima. E por concordarmos em gênero, número e grau com Mestre Yapacani, deixemos que ele continue a nos ensinar:
"(...) de fato, é claro que ela (entidade) faz coisas extraordinárias. Cura. Ajuda. Aconselha. Demonstra conhecimentos irrefutáveis etc...
São tantos os casos positivos do protetor através da mediunidade do médium, que logo se forma em torno dele uma corrente de admiração, e de fanatismo também.
A maioria dos elementos (filhos-de-fé), que o cercam, diante das coisas que vêem, são levados a agradar, a bajular, e com essas coisas, inconscientemente, vão-lhe incentivando a vaidade latente. Isso de forma contínua. A maioria desses médiuns não estudam, porque também não receberam ou não se interessam por uma preparação mediúnica adequada.
O protetor faz o que pode e deve (respeitando o livre-arbítrio), isto é, ensina, doutrina, alerta pelos canais mediúnicos: - na manifestação, nas intuições, nos avisos etc.
Mas acontece sempre que o médium, devido a fortes predisposições à vaidade, começa por não dar muita atenção aos conselhos, às advertências que o seu protetor vem fazendo... Chega a ponto de se julgar o tal, quase um "pequeno-deus". Ele pensa que a força é dele... Que o protetor é dele - é propriedade sua...
O médium vai crescendo em gestos, em palavras, pois que todos se acostumam acatá-lo em respeitoso silêncio, quando não, pelo medo ou por interesse próprio... Vai crescendo a sua vaidade e logo começa a fazer exibições mediúnicas...
Ele começa a praticar uma coisa que será fatalmente a sua cova... Passa a "trabalhar" sem estar corretamente mediunizado (ou seja, pede apenas a irradiação do "guia" de sua preferência sobre ele). (...)
Então, começam os desatinos, as bobagens, as confusões e a respectiva falta de penetração nos casos e nas coisas.
Começa a criar casos, a ter preferências e outras coisas mais. Não obstante as reiteradas advertências do protetor, ele continua... Eis que surgem os "transtornos". Os seus canais-mediúnicos, dada a faixa-mental que ele criou com os efeitos de sua excessiva vaidade, abrem portas aos quiumbas, que entram na dita faixa...
Daí tem início uma série de absurdos, envolvimentos negativos etc. O ambiente do terreiro sai da tônica de outrora. Tudo se altera. Nessa altura o médium percebe apavorado que o seu protetor mesmo - aquilo que era bom, foi embora... Deixou de sentir a positividade de seus fluidos benéficos...
No princípio ele tem um profundo abalo... Depois... Ah! Depois, ele vai se acostumando com o fluido dos quiumbas etc., e mantém a sua excessiva vaidade de qualquer forma... Não quer perder o "cartaz"...
Porém, as curas, a antiga eficiência, não há mais...
(...)
O pobre médium que fracassou pela excessiva vaidade no íntimo é um sofredor, muitos se desesperam com o viver da arte de representar os caboclos, os pretos-velhos etc.
Enfim, ser um "artista do mediunismo" também cansa, porque a descrença é o "golpe de misericórdia" em suas almas."
(Ibid. p. 37-39).
A vaidade excessiva sempre é acompanhada de suas filhas diletas: a arrogância, a prepotência, a empáfia e as minhas "verdades" inquestionáveis, que devem prevalecer acima de qualquer uma, não importando as provas que surjam para contraria-las. Se eles dizem que uma coisa é amarela, embora os outros estejam vendo que é azul, todos devem se calar e aceitar como amarela. Estes são as regras impostas pelos que se deixam tomar pela vaidade excessiva.

II - Dinheiro

Nessa causa de queda e fracasso mediúnico, Mestre Yapacani diferencia duas situações:
a) O médium de fato que cai pela ambição desenfreada do vil metal;
b) Os espertalhões e vândalos que usam o bom nome da Umbanda e de suas entidades a fim de explorarem a ingenuidade da massa, de todas as maneiras.
Com respeito ao segundo caso, como mesmo diz Mestre Yapacani: "De vez em quando os jornais dão notícias deles..." (Ibid. p. 39)
Detenhamo-nos no primeiro caso. Esse, totalmente, defendido por alguns, na famigerada "Lei de Salva" e aqui já de bate pronto, realizo uma mea culpa. Em meu livro e durante muitos anos defendi ferrenhamente o pagamento em dinheiro da Lei de Salva, como um dever a ser respeitado por todo filho-de-terreiro. Acreditava então, que mediante o fato de nos depararmos com pessoas (dirigentes de terreiro) que viviam exclusivamente para a religião e não tendo outra fonte de renda, era lícito tanto se cobrar, como se pagar consultas e trabalhos espirituais. Ledo engano da minha parte e a vida me ensinou a duras penas, que o único beneficiado em tudo isto, era e foi exclusivamente o receptor da lei de salva.
Indubitavelmente, reconheço que em nossa religião são raras as coisas possíveis de se fazer que não envolvam dinheiro. Dos materiais utilizados, a manutenção e sustentação da infra-estrutura de um terreiro, de coisas simples, como o pagamento de contas de água, luz, telefone etc., se envidam esforços para conseguir o aporte financeiro necessário. De fato, não é fácil manter um casa aberta e realizar as giras, sejam elas semanais, quinzenais ou mensais. Entretanto, existem maneiras lícitas de se conseguir tal mister. Existem muitos terreiros, que sobrevivem por esse Brasil afora e são exemplos a serem seguidos de auto-gestão eficiente. Sai do escopo deste artigo explicar como. Uma coisa é certa, não é com a chamada lei de salva que eles fazem isso.
A Lei de Salva somente deve ser utilizada para trabalhos que envolvam Magia e exclusivamente voltados as questões que exigem o combate a Magia Negra. Reproduzimos mais uma vez, as sábias palavras de Mestre Yapacani, agora no seu livro "Umbanda e o Poder da Mediunidade" (1987 - 3a. edição - Livraria Freitas Bastos p. 77-80).
"Mas o que é, em verdade, a lei de salva? Tentaremos explicar isso direitinho, pondo os pontos nos ii, que é para tirarmos a máscara de muitos falsos "chefes-de-terreiros", ou "babá", ou que outro qualificativo lhes queiram dar, que fazem disso a "galinha de ovos de ouro"...
Essa lei de salva é tão antiga quanto o uso da magia. Existe desde que a humanidade nasceu.
Os magos do passado jamais se descuidavam de sua regra, ou seja, da lei de compensação que rege toda ou qualquer operação mágica, quer seja para empreendimentos de ordem material, quer implique em benefícios humanos de qualquer natureza, especialmente nos casos que são classificados na Umbanda como de demandas, descargas, desmanchos etc. Dessa lei de salva, ou regra de compensação sobre os trabalhos mágicos, nos dão notícia certos ensinamentos esotéricos com a denominação de lei de Amsra...
Nenhum magista pode executar uma operação mágica tão somente com o pensamento e "mãos vazias" - isto é, sem os elementos materiais indispensáveis e adequados aos fins...
Essa história de pura magia mental é conversa para entreter mentalidades infantis ou não experimentadas nesse mister.
Qualquer ato ou ação de magia propriamente dita requer os materiais adequados, sejam eles grosseiros ou não. Vão dos vegetais às flores, aos perfumes, aos incensos, as plantas aromáticas, às águas dessa ou daquela procedência até ao sangue do galo ou bode preto.
A questão é definir o lado: - ou é esquerda, ou é direita, negra ou branca.
Ora, como toda ação mágica traz sua reação, um desgaste, uma obrigação ou uma responsabilidade e uma consequência imprevisível (em face do jogo das forças movimentadas) é imprescindível que o médium-magista esteja coberto ou que lhe seja fornecida a necessária cobertura material ou financeira a fim de poder enfrentar a qualquer instante essas possíveis condições...
Então é forçoso que tenha uma compensação. Aí é que entra a chamada lei de salva, ou simplesmente SALVA...
Mesmo porque, todo aquele que, dentro da manipulação das forças mágicas ou da magia, dá, dá e dá sem receber nada, tende fatalmente a sofrer um desgaste, pela natural reação de uma lei oculta que podemos chamar de vampirização fluídica astral, que acaba por lhe enfraquecer as forças ou as energias psíquicas...
E naturalmente o leitor, se é médium iniciado na Umbanda, nessa altura deve estar interessadíssimo em saber como será essa compensação. Claro, vamos dizer como é a regra, para que você possa extrair dela o que seu senso de honestidade ditar: DE QUEM TEM, PEÇA TRÊS, TIRE DOIS E DÊ UM A QUEM NÃO TEM; E DE QUEM NÃO TEM, NADA PEÇA E DE ATÉ DE SEU PRÓPRIO VINTÉM.
(...)
É claro que essa lei de salva ou de compensação, própria e de uso exclusivo em determinados trabalhos de magia, não pode ser aplicada em todos os "trabalhinhos" corriqueiros que se pretenda ser de ordem mágica."
Como vimos, a lei de salva está totalmente imbricada com a honestidade de quem a aplica, com o discernimento ético, e principalmente com o uso adequado da regra acima estabelecida.
O uso indiscriminado e abusivo, como vemos existir em muitos lugares, para quaisquer tipo, já não só de magia, mas para tudo em qualquer circunstância, inclusive até para se acender uma simples vela é deplorável, desonesto e voltado exclusivamente para o enriquecimento ilícito do cobrador, que se vale da necessidade alheia, do desespero de causa de outrem e da ingenuidade da maioria para explorar e garantir seu sustento e sobrevivência através da Umbanda, que diz praticar e ser médium, chefe-de-terreiro, dirigente de casas abertas, sacerdotes e sacerdotisas "confiáveis" e de "credibilidade".
Se a lei de salva é uma regra inviolável, ela também tem a sua contra-parte de retorno para aqueles de quem dela abusam.
Como diz Mestre Yapacani: "É triste vermos como a queda desses verdadeiros médiuns-magistas é vergonhosa, desastrosa até... Começa acontecer cada uma a esses infelizes! Desavenças no lar, separações, amigações, neuroses, bebida, jogo e uma série de "pancadarias" sem fim, inclusive o desastre econômico (...) e no final de tudo, verdadeiros trapos-humanos (...)." (Ibid. p. 80)
E no seu livro "Segredos da Magia de Umbanda e Quimbanda" citado anteriormente, ressalta novamente, sobre a questão do dinheiro e da lei de salva: "Agora compete ao magista, seja ele de que corrente for, não abusar, não exceder, não ambicionar, não derivar para o puro lado da exploração... Ora, o médium-magista então, ambiciosamente, começa a abusar disso. Começa por se exceder na Lei de Salva, pedindo mais dinheiro. Passa a cobrar grosso em tudo e por tudo. Inventa "trabalhos" de toda espécie, assim como "desmanchos" e afirmações para isso e aquilo... E os aflitos, os superticiosos, os impressionáveis, os filhos-de-terreiro, dão e sempre com prazer, visto esperarem sempre uma melhoria ou uma vantagem qualquer por via disso (...). (Os que abusam da Lei de Salva) (...) comumente se deixam enterrar mais ainda nesses aspectos, porque afinal de contas dinheiro é coisa boa e traz muito consolo por outros lados.
Todavia, apesar da fartura do dinheiro fácil, reconhecem depois de certo tempo que é um dinheiro maldito... Passam a viver com a consciência pesada, irritados e sempre angustiados. O fim de todos eles tem sido muito triste... Ou surgem doenças insidiosas, ou os vícios para martirizá-los, pois a moral já é uma cruz que carregam desde o princípio de seu fracasso mediúnico...".
(Ibid. p. 42-43)

III - Sexo

A questão do sexo, muitas vezes está ligado a 1a. causa (vaidade excessiva) e alimentado pela 2a. causa (dinheiro fácil), em outros casos, nem tanto. Indiferente de nossa orientação sexual, devemos estar sempre vigilantes contra os possíveis assédios e as prováveis tentações que nos ocorram. Devemos sempre ter em mente a responsabilidade que nos cabe como instrumentos fiéis do astral e no caso dos dirigentes de terreiro a ação e reação de nosso envolvimento com as pessoas que nos confiam seus problemas, segredos íntimos, angústias, atribulações, medos e inseguranças. Sob este aspecto é inadmissível que médiuns masculinos justifiquem a sua incontinência sexual ou mesmo promiscuidade, por conta de terem um Exú "fulano" ou "sicrano", ou simplesmente um exú e de médiuns femininos se arvorarem de possuir uma pombagira "beltrana" etc. Pior ainda, de "chefes-de-terreiro" que valorizam essa situação para tirar proveito para si mesmos ou de, no intuito de arrecadar dinheiro de seus prosélitos, encostam pombagiras e exús nestes, a fim de incentivá-los ou fortalecê-los para praticarem, como se diz, a "vida fácil".
Um absurdo, o verdadeiro "show" de sensualidade e escrachamento que acontecem dentro dos terreiros.
O tempo dos exús "garanhões" e das pombagiras "prostitutas" tem que acabar. Essa época dos exús "babando", desfigurados, tortos e as mãos em formas de garra, de pombagiras escandalosas, de salto alto, maquiagem exarcerbada, vestidos sensuais ou nuas da cintura para cima já se foi, ou nunca existiu e esqueceram de avisar há muitos. Exús e Pombagiras são entidades importantissímas dentro do universo umbandista, não são demônios, nem diabos de chifres, rabos e epiderme vermelha. Acreditar nisso sim, é que são os chifres que colocaram na sua cabeça. Mas, isto é conversas para mais de metro e para outro artigo.
Nessa altura, o caro leitor deve estar se perguntando... Aonde é que se encaixa o filme do Steve Martin?
Bom, a fé pura em sua essência positiva, curou o garoto paralítico, mesmo em frente a uma farsa montada pelo personagem do Steve Martim, o pastor evengélico, tá lembrado?
Alertamos, aos irmãos umbandistas, que esta fé pura, essencialmente positiva, calcada na inocência do garoto e não na sua ingenuidade, é válida e gera frutos "milagrosos", podemos assim dizer. No entanto, devemos para todas as ocasiões mantermos um mínimo de racionalidade que permita a nossa fé transitar, sem que caiamos nessas armadilhas produzidas por esses tipos de "dirigentes/médiuns".
A máxima a seguir é válida para todos nós, tanto para cuidarmos de nossa mediunidade, como também para evitarmos essas arapucas ambulantes: Vigiemos e Oremos!
Afinal, fé demais (sem o mínimo de discernimento e racionalidade) não cheira bem!

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