terça-feira, 24 de julho de 2007

FACULDADE SEM O ABC!

Na vida cotidiana e no campo profissional é fato, que uma pessoa é considerada formada, quando recebeu um diploma universitário. A condição primordial, para que isso aconteça, é a escalada de estudos realizados, que se inicia desde à época do aprender a ler e escrever, até o domínio das matérias ensinadas na faculdade. Um diploma significa que a pessoa cumpriu todas estas etapas, por conseqüência, detêm o conhecimento acumulado para se dedicar à profissão, na qual se graduou e que está plenamente, preparado para exercê-la. Como uma pessoa pode se formar em uma universidade, sem ter aprendido a ler e a escrever um dia? Inadmissível, no mundo real.
Acontece também de universitários, não seguirem a profissão do diploma, por não sentirem a menor vocação, tendo se formado para cumprir uma obrigação assumida junto aos seus pais, ou mesmo para garantirem um enriquecimento no seu currículo, facilitando a candidatura em empregos promissores financeiramente.
Assim, temos a vocação como uma premissa necessária, para que o diplomado consiga exercer sua carreira de forma plena e atuante. É 0 aprendizado contínuo, do básico ao avançado, do simples ao complexo, que cria o domínio da profissão. E o diploma caracteriza e ratifica a formatura conquistada.
No mundo espiritual existem correlações similares. A vocação é o merecimento, o aprendizado são as experiências e vivências existenciais, e o diploma é a graduação espiritual alcançada.
Não é o mundo espiritual, que imita a vida cotidiana e o campo profissional, são estes últimos, que palidamente copiam o mundo espiritual.
Na Umbanda não é diferente. O umbandista que almeja ser um dia, sacerdote na nossa religião, tem que obedecer a mesma escrita. Realizar um estudo contínuo e profundo, aprender das coisas mais básicas até as ciências mais complexas, adquirir os conhecimentos necessários para o exercício pleno da função sacerdotal, são as condições mínimas, que devem existir para tal.
Falar de sacerdócio na Umbanda é remeter a necessidade de possuir o merecimento espiritual para sê-lo. É nascer com essa missão e ter assumido esse compromisso com a espiritualidade, é como, comumente se diz, ter ordens e direitos de trabalhos neste sentido.
Conhecimento, cultura, teoria se consegue com o aprendizado constante. Merecimento, ou se tem, ou não se tem. Se o trilho que se caminha dentro da Umbanda, se chama evolução espiritual, o merecimento é a condição primeira, de tudo que se conquista, almeja e se alcança dentro da religião.
A concordância da espiritualidade, sempre foi para mim, o fator, mais importante, para a garantia de sucesso, bons augúrios, respostas e energias positivas, bênçãos, aporte do Astral, em qualquer tipo de ação e reação impetrada ou sofrida pelo filho-de-fé. Algo, que todo umbandista deve sempre conquistar, em quaisquer situações de sua práxis religiosa.
A partir do SIM do mundo espiritual, tudo tem propriedade e está plenamente validado. O resto é uma questão de tempo. Este aporte do astral pode ser constatado de várias formas e, entre as possíveis, podemos citar: a palavra das entidades espirituais, a confirmação pelos oráculos divinatórios (búzios, ifá, numerologia etc.) e acontecimentos espirituais significativos na vida do umbandista.
Independente deste SIM do mundo espiritual, para a concretização no plano material se o adepto será sacerdote na Umbanda, cada escola do movimento umbandista, possui um caminho de iniciação (conjunto de obrigações ritos/litúrgicas), que proporcionam o progresso religioso dos seus filhos-de-fé. Esse aprendizado envolve desde os ensinamentos básicos até os necessários para que eles adquiram a autonomia de poder caminharem sozinhos.
Um dos objetivos primordiais da Umbanda é gerar em seus adeptos um conhecimento integral, transformá-los em umbandistas, senhores de seu processo de evolução, capacitando-os a dirigir a si mesmos e assumirem completamente, as responsabilidades inerentes aos seus deveres e obrigações espirituais.
Para isso, é fundamental que Pais/Mães-de-Santo, sejam cônscios de que, suas responsabilidades, devem ser de orientadores e facilitadores desta independência consciencial. Evidentemente, que no início, eles sirvam de apoio, de ajuda, de decisores na vida dos seus filhos-de-santo. É natural que eles assumam temporariamente, a característica de suporte consciencial e solucionadores de questões materiais e espirituais, mas é impensável, que isto ocorra por todo o sempre.
O Pai/Mãe-de-Santo tem o dever de ir formando os seus filhos-de-santo, fornecendo-lhes os instrumentos, as ferramentas e os conhecimentos adequados, para torná-los cada vez mais capacitados e preparados, para o enfrentamento da vida e dos seus processos evolutivos, que lhe são inalienáveis e pessoais. Vejam que estou falando, daquilo que deveria ser a preocupação real e primeira do dirigente de uma casa espiritual de Umbanda.
Em segundo lugar, é que deve ser contemplado o aprendizado das coisas relativas à religião em si. Esse aprendizado das coisas relativas à Umbanda, é importante, porque a fé, as crenças, os valores e o desenvolvimento espiritual do adepto foram por eles depositados, de livre e espontânea vontade, sobre os alicerces da religião e não fora dela.
Quando esses ensinamentos, concernentes a Umbanda, se referirem à preparação do filho-de-santo para o exercício sacerdotal, eles devem ser ministrados completamente. Aqui sim, estamos nos referindo a uma passagem de conhecimento integral. Ninguém pode ser sacerdote ou sacerdotisa umbandista, com pouco, algum ou nenhum conhecimento. A responsabilidade da qualificação deste sacerdote ou sacerdotisa é total do Pai/Mãe-de-Santo que o ordenou.
Devemos lembrar que a formação sacerdotal, implica em capacitar outrem, para exercer um papel direção espiritual de um terreiro, de formar orientadores e facilitadores para outros umbandistas, que estarão sob a sua guarda e responsabilidade, qualificar novos condutores de almas no caminho da evolução espiritual. Isto é muito sério! E com certeza, o fracasso, a falta de conhecimento, o despreparo espiritual de um sacerdote umbandista, respinga de forma incondicional no responsável pela sua formação.
Diferente do mundo material, em que a universidade, não garante e não se responsabiliza, pela qualidade do trabalho profissional de quem nela obteve a graduação, para o plano espiritual, a outorga sacerdotal implica que existe sim, um avalista e este é o Pai/Mãe-de-Santo do sacerdote ordenado.
Evidentemente, que nem todo umbandista nasceu para ser sacerdote, até por que, se assim fosse, chegaria o momento, que somente existiriam Pais/Mães-de-Santo e nenhum filho-de-santo.
A Umbanda é rica de oportunidades e existe espaço para todos poderem colaborar e realizar algo em prol da religião, da coletividade, do terreiro que se freqüenta e da sociedade em geral. Seja ocupando um cargo hierárquico, seja com a responsabilidade de uma determinada função, o filho-de-fé interessado, de boa-vontade e proativo tem muito a contribuir. Trabalho não falta!
No movimento umbandista, no entanto, há escolas, que no seu processo de iniciação, se encontra implícito a formação sacerdotal e para ficarmos no exemplo, podemos citar a Escola Omolocô. Isso ocorre segundo alguns estudiosos, por conta da herança dos cultos afro-brasileiros e é gerado através das assimilações, verossimilhanças e/ou sincretismo sofridos com o passar do tempo (talvez por isso, o Omolocô seja considerado por muitos como um Culto de Nação e não Umbanda, ou tachados de umbandomblé).
O importante, para nossa linha de raciocínio, é que na Escola Omolocô, o umbandista ao tornar-se adepto, pode ter a certeza, que no final de seu processo de iniciação ele conquista o direito ao sacerdócio.
Aproveitamos para ilustrarmos esse processo de formação sacerdotal, e em seguida demonstrar o que seria errado ou o que transformaria esse caminho totalmente válido para o sacerdócio, em fracasso do outorgado ou frustração completa.
Já desenvolvemos esse tema (Iniciação na Umbanda Omolocô) em alguns artigos publicados nesse blog, façamos aqui então, um breve resumo:
1) a opção ou escolha de se iniciar na Umbanda Omolocô é de livre e espontânea vontade do filho-de-fé.
2) tendo decidido pela iniciação se é cumprido um total de 8 (oito) obrigações anuais.
3) ao final das obrigações anuais o filho-de-fé está completamente preparado para guiar a sua vida umbandista por conta própria.
As oito obrigações anuais representa um ciclo completo de aprendizado, estudo sistematizado e rituais e liturgias, que qualificam o iniciado para sua autonomia dentro da Umbanda Omolocô.
Em linhas gerais, com foco na preparação do filho-de-santo:
1ª. Obrigação Anual: Batismo, feitura do santo, e ensinamentos básicos, como por exemplo, a história da Umbanda e do Omolocô, bem como explicações sobre direitos, deveres e obrigações do iniciado.
2ª. Obrigação Anual: Ritos/Liturgias inerentes a esta obrigação e estudo sobre os Orixás, entidades espirituais, suas falanges e tipos de trabalhos realizados.
3ª. Obrigação Anual: Ritos/Liturgias inerentes a esta obrigação e estudo sobre mediunidade, características e desenvolvimento.
4ª. Obrigação Anual: Ritos/Liturgias inerentes a esta obrigação e através do oráculo divinatório ou outro método, próprio do terreiro que se freqüenta, é definido a vocação do iniciado dentro da religião. Se ele será preparado para ocupar um cargo na hierarquia do terreiro, uma função específica ou se sua vocação é o sacerdócio. Geralmente os estudos realizados nessa obrigação estão voltados para os fundamentos do oráculo ou o método específico de divinação que o terreiro adota.
Daí em diante as demais obrigações representam a preparação do iniciado de acordo com a sua vocação.
5ª, 6ª e 7ª. Obrigação Anual: Ritos/Liturgias inerentes a cada uma destas obrigações e com os estudos pertinentes a vocação do iniciado, que foi definida na 4ª. Obrigação Anual.
8ª. Obrigação Anual: Consagração e confirmação do iniciado. Festa de apresentação pública do novo integrante da hierarquia do terreiro, ou no caso específico, do Sacerdote ou Sacerdotisa.
Evidentemente que o aprendizado sobre as coisas da religião, ocorre diariamente, no processo de convivência e participação do filho-de-santo.
A função destes estudos nas obrigações anuais representa a legalização da formação do iniciado, que recebe os ensinamentos de uma forma oficial e detém essas lições através do aprendizado direto e do farto material de estudo que é entregue sob sua guarda (apostilas, livros etc.).
Desta forma na Umbanda Omolocô, toda a condição é oferecida para que seu iniciado aprenda tudo aquilo que seja necessário para a sua formação completa dentro da religião. Como é óbvio, não se saber quais as circunstâncias e motivos para o qual o iniciado precisará utilizar os conhecimentos, ciências e fundamentos da religião, na Umbanda Omolocô se ensina tudo. Importante é que o adepto esteja preparado para enfrentar quaisquer situações, que ele venha se deparar. Correto é o Pai/Mãe-de-Santo que cumpre essa escrita. Fazendo isto sem restrições, se demonstra o respeito à tradição da Umbanda Omolocô e a certeza de que sua linhagem será uma geração respeitada e honrada desde sua ancestralidade.
A Umbanda Omolocô está espalhada por todo o Brasil, sendo que os estados de Minas Gerais e do Rio de Janeiro, são uma referência como pólos irradiadores e disseminadores desta escola. Nesses locais existem em plena atividade ainda, a geração de filhos-de-santo diretos dos grandes expoentes da Umbanda Omolocô, como Tata Ti Inkice Tancredo da Silva Pinto, N’Ginja Delfina de Oxalá, Tatá Opongô Nilton Santos e tantos outros.
Essa linhagem trabalha pela manutenção da tradição da escola, pelo seu levantamento histórico e pela difusão dos ensinamentos do Omolocô. Todo o terreiro é um verdadeiro centro de estudo, uma instituição cultural e uma escola de aprendizado. Os seus filhos-de-santo são incentivados ao estudo, a pesquisa e a gerar conhecimento. Nesses locais não se retém ciências e fundamentos. Não existem erôs (segredos e mistérios) que os iniciados não tenham acesso. Tudo pode se aprender, dependendo exclusivamente, da boa-vontade, do interesse e da dedicação do filho-de-santo.
Na sua oitava obrigação anual, o filho-de-santo conquista o seu Deká (insígnia de consagração do Sacerdote/Sacerdotisa da Umbanda Omolocô). Ao receber a sua formatura o iniciado está pronto e com autonomia para seguir em frente.
E quais seriam então os processos que podem gerar o fracasso e a frustração dos iniciados? São exatamente, as excrescências, as interpolações, os acréscimos e as particularizações criadas com objetivos indisfarçáveis, totalmente alheios ao puro interesse de formar, ensinar e educar o filho-de-fé.
É só analisarmos o que é certo e facilmente descobriremos o que é errado e totalmente inadmissível;
i) na Umbanda Omolocô, a iniciação remete a feitura de santo, o Orixá da frente ou principal, podendo ser feito também o segundo Orixá (Pai ou Mãe dependendo do gênero do primeiro Orixá) e o terceiro denominado de ascendente ou cabalístico. É o triângulo de forças inerentes ao ori (cabeça) de todo o filho-de-santo.
ii) a feitura tem como base, além de uma ritualística e liturgia própria a catulagem e o tarimbamento do santo no ori do iniciado. Isto, somente é realizado uma única vez.
iii) é de responsabilidade do iniciado, arcar com os custos do material utilizado em suas obrigações anuais, inclusive com a festa pública e a confecção do seu deká, caso o deseje, na sua oitava obrigação.
iv) a salva na Umbanda Omolocô, representa a doação de materiais para serem utilizados no terreiro, por exemplo velas, incensos, dendê, mel etc.
v) não existe o pagamento de mão do Pai/Mãe-de-Santo, para realização de quaisquer coisas dentro da religião.
vi) é um direito inalienável, do filho-de-santo iniciado, receber por completo todos os ensinamentos, conhecimentos, ciências e fundamentos necessários a sua formação com adepto da religião.
vii) o deká é um direito, não se compra deká! Ao se completar as oito obrigações anuais, o deká é automático, sem necessitar nada mais além, do que ter cumprido oito anos de obrigação.
ix) ao se receber o deká, o iniciado recebe também sua autonomia. Não existindo a necessidade de depender mais, de tudo que fizer na religião, precisar da intervenção, presença ou ser realizado pelo seu Pai/Mãe-de-Santo. Para isso ele, ao longo dos oitos anos de obrigação, recebeu uma formação integral, que o credencia para fazer qualquer coisa dentro da Umbanda Omolocô.
Portanto, amigo leitor, deká não é um colar de palha, ele representa algo muito sério na Umbanda Omolocô. Ele não é para ficar guardado, correndo o risco das traças comerem, se for mal acondicionado. O deká é para ser usado! Ele representa a insígnia maior, de quem lutou, trabalhou e estudou muito a religião. O deká é a comenda da completude do iniciado, como conhecedor dos fundamentos e ciências da Umbanda Omolocô.
Sacerdotes e Sacerdotisas que receberam seus dekás, não ficam como enfeites nos terreiros de Umbanda Omolocô, apenas distribuindo bênçãos aos seus irmãos-de-santo.
Se vão ou não abrir seus terreiros, ter filhos-de-santo é uma questão pessoal, no entanto, a partir de suas cerimônias de recebimento do seu deká, os sacerdotes e sacerdotisas têm o direito conquistado para tocarem as suas vidas espirituais independentes, serem co-partícipes ativos das decisões, em quaisquer instâncias, nos terreiros que freqüentam, instruírem os que estão no caminho e dividirem as responsabilidades de autoridade da casa. Inclusive, de fazer a iniciação de seus filhos-de-santo, dentro do terreiro em que freqüentam.
Geralmente, na Umbanda Omolocô, os novatos no terreiro, trazidos ou não pelos sacerdotes e sacerdotisas da casa, mas que ficam sob sua tutela, não são mais iniciados pelo o Pai/Mãe-de-Santo principal da casa e sim, pelos seus tutores imediatos.
É impensável, que um Sacerdote e Sacerdotisa, dentro da Umbanda Omolocô, não saiba preparar uma cafua de exu, preparar banhos, sejam os mais simples (limpeza e descarrego), ter condições para fazer uma feitura de santo, realizar trabalhos espirituais para outros e para si mesmos, não conheça os fundamentos do roncó, não tenha recebido a mão-de-faca, etc. E pior, continuar pagando, geralmente é o que acontece, para que o Pai/Mãe-de-Santo, realize o que ele deveria fazer por si mesmo.
Se isso acontecer com alguém, façam um favor a si mesmo, queimem os seus dekás e rasguem os seus diplomas, pois vocês ainda não se tocaram, mas continuam a ser nada mais, nada menos do que um simples filho-de-santo!
Ou então, procurem seus Pais/Mães-de-Santo, questionem, perguntem e exijam, pois estão nos seus direitos e, com certeza, algo está seriamente errado no terreiro que vocês freqüentam.
Formatura sem conhecimentos, diploma sem receber a preparação adequada é igual a tentar uma fazer uma faculdade sem o ABC!

Marcadores:

3 Comentários:

Blogger Felipe disse...

Ótimo texto. E percebendo com atenção, a mensagem se aplica a qualquer "escola", independentemente da crença. Como podemos observar em todas as comunidades no mundo, a "má" formação de sacerdotes gerou e continua gerando problemas dos mais variados em todos os cantos do mundo. Se todos seguissem essas premissas com certeza teríamos mais e melhores terreiros espalhados por esse mundo a fora e gerando mais esclarecimento e evolução a todos.

Conheci o blog hoje com certeza sempre que possível estarei de volta, procurando uma boa leitura como a de hoje.


Um abraço.

1:39 AM  
Anonymous Lidiane Souza disse...

Gostei bastante do texto, gostaria de parabeiza-lo pelo DEKA. Por coencidencia pesquisando sobre umbanda encontrei seu blog. Meus parabens que voce seja muito feliz.
Filha da Itamara - Casa Pai Davi.

Lidiane Souza.

10:36 AM  
Anonymous Anônimo disse...

tres interessant, merci

10:13 AM  

Postar um comentário

<< Home