quarta-feira, 22 de novembro de 2006

O belo, o feio, o tapete e a sinfonia!

"Existem apenas dois tipos de pessoas que não gostam
de você, os idiotas e os invejosos. Os idiotas daqui a 5
anos passam a gostar, os invejosos, jamais!"
J. W. Rochester - Segundo Conde de Rochester


Alguém já disse que: "O belo, todo mundo faz questão de mostrar, já o que é feio deve ficar oculto". Em outras palavras, o certo e correto devem ser exaltados e divulgado para todos, já o que está errado ou os defeitos devem ser esquecidos e, se possível, escondidos do mundo.
Não menos famosa é frase: "Não se deve cuspir no prato em que se comeu", como referência ao fato, de que não se tem o direito de desqualificar alguma coisa, em que um dia, no passado se exaltou as qualidades.
De fato, o ser humano é cheio dessas contradições. Invariavelmente, todos nós vivenciamos, nos deparamos, assistimos ou participamos de situações como essas, em algumas, ou várias épocas de nossas vidas. Em todos os campos de nossa existência, esses conflitos conscienciais ocorrem, é normal e devemos estar plenamente preparados para enfrentá-los.
Ninguém nasce sabendo tudo, todo dia temos algo novo a aprender ou ensinar, bem como, podemos refletir sobre nossas experiências e modificar o nosso modo de pensar. Esse é um direito inalienável do ser humano.
As religiões espiritualistas costumam chamar, esse espaço consciencial mutável, de livre-arbítrio. O livre-arbítrio 'per si', não é bom nem ruim, ele é isento de bondade e maldade, já que apenas serve, como um lócus de consciência neutro, em que reflexões, meditações são avaliados, sob o conjunto dos valores adquiridos com tempo, ou em determinado período e seu resultado transformados em atos e decisões, que podem ou não ser duradouros.
Insulados na matéria e envolvidos por camadas e mais camadas de experiências diversas, além da sensibilidade interna, gerado por instinto atávico e emoções, o ser humano, queira ou não queira, é sim, como bem já disse Raul Seixas, "uma metamorfose ambulante". Nós é que às vezes, não assumimos ou não queremos reconhecer essa faceta de nossas almas.
Da menor e mais simplória decisão de nossas as vidas até as mais complexas, quantas vezes não mudamos de opinião, preferências e conclusões. Algumas dessas mudanças, em nada interfere no processo de nossas existências, outras exigem um esforço maior ou geram conflitos e por consequência opções de escolha as mais diversas, que alteraram completamente os nossos destinos.
Em muitos casos, são envolvidos ou se envolvem por conta própria, terceiros. Antigamente, já era difícil tomarmos decisões unilaterais, que não tivessem algum tipo de conexão com o alheio, agora com o mundo globalizado e conectado, isto é praticamente impossível.
O que a física quântica denomina hoje, como "efeito-borboleta", já existia há muito tempo e a ciência ainda não tinha se dado conta disso. Sociologicamente falando, quaisquer movimentação, que conquistemos na sociedade, ou alterações que realizemos na nossa realidade, reflete direta ou indiretamente nas demais pessoas e na coletividade.
Resumindo, o que somos hoje, sendo diferente do que fomos no passado, com certeza, alterou ou interferiu com alguém, um grupo, uma coletividade, o macro-ambiente e quiçá o planeta. Podemos não tomar consciência dessas interferências, mas por menor que seja o ato, ele provoca efeitos em alguma coisa. A dura realidade é que às vezes essas interferências ocasionam dificuldades e até o impedimento para que mudanças sejam realizadas.
Consciente ou inconscientemente, temos medo de mudar e da mudança, seja ela de que forma se processe. Por nós mesmos e para evitarmos os transtornos, que porventura causemos ao alheio, podemos optar por manter tudo como está.
Mantemos, muitas vezes, esse 'status quo', quando mudar significa: o rompimento com uma estabilidade, com uma situação, que previamente se aceitou e auriu benefícios, alegrias e satisfações por muito tempo; um despertar para se deparar com uma realidade que anteriormente não acreditava ser possível; ou também, representar alteração de valores e plena modificação de idéias e pensamentos.
Geralmente, as maiores dificuldades enfrentadas para esse tipo de processo de mudanças é quando fazemos parte de uma coletividade específica. É normal as coletividades que tem um elo muito forte e um determinado foco comum , reunindo membros em torno de um propósito, tenham inerentes um senso de proteção corporativa muito grande. Quando uma célula distoa da sinfonia tocada pela maioria, rapidamente ela é pressionada a se reenquadrar harmoniosamente ou caso contrário é envolvida em um processo de desarmonização que chega as raias da discriminação, do defenestramento ou da auto-expurgação pura simples.
Por isso, preferimos muitas vezes, dependendo do caso, continuarmos a ver o mundo através de um óculos cor-de-rosa, pingar um colírio alucinógeno ou tapar o sol com uma peneira.
É cômodo, não mudar, ou então, é trabalhoso e incomoda aos vizinhos.
Quando o caso se trata de despertar, para uma realidade contrária a um posicionamento exercido durante anos, ou rompimento com verdades tratadas, como certezas inquestionáveis até então, estamos falando, muitas vezes, de um processo que envolve sofrimento e dor. 'O sofrer é um bem divinal, que o Senhor nos envia do astral, é o cadinho imortal da redenção', já se canta no hino à Bezerra de Menezes.
Posso imaginar a dor e o sofrimento do nobre judeu Saulo de Tarso, implacável perseguidor dos cristãos, quando do seu despertar para uma realidade totalmente oposta a sua, no caminho de Damasco. Como deve ter sido doloroso e difícil para ele, retornar a sua coletividade para testemunhar e falar a favor daquilo que ele tanto combatia. O seu povo (os judeus) fizeram-lhe franca e aberta oposição, expurgando-o do seu meio, já os gregos receberam-no com frivolidade e ceticismo, restou, portanto, a Saulo, agora Paulo o apóstolo, pregar para os gentios.
Se tornou por muitos anos uma voz solitária no vazio e por muito tempo, somente escutou o eco de suas palavras como resposta. Como sempre a história nos ensina e exemplos mil poderíamos citar.
Romper com sua história é começar do zero novamente, da pior forma às vezes, sem ter necessariamente, muita clareza e visão do todo.
Faz-se mister largarmos o oásis de aparente paz e tranquilidade em que vivíamos e como Saulo, reconstruirmo-nos algum tempo no deserto, sofrendo as intempéries das incertezas e bebendo o fel das consequências. Consequências essas, muitas vezes produzidas pela coletividade envolvida por esse rompimento, ou afetadas por essa mudança solitária.
A coletividade por ser gregária, não admite vôos solos de suas células, preconizam a estaticidade de seu movimento, pois desejam se proteger ferrenhamente contra todas e quaisquer mudanças em seus alicerces e fundações. Acostumaram-se a exaltar, como dizíamos no começo, o belo e esconder o feio e preferem rotular a célula mudancista, como alguém que hoje, cospe no prato em que um dia comeu.
Mudar o passado realmente não se consegue, mas enxergar o presente sem as máscaras da ilusão e tentar modificar o futuro sim, isto é possível.
Pena, que nessas horas, ninguém se lembre disso. Como também não se lembram, que muitos na coletividade, enxergam e compartilham das mesmas realidades reveladas pela célula desarmonizada, realidades essas, consideradas agora inaceitáveis e inexistentes.
Convenientemente, preferem abafar, que existem entre eles (os demais membros da coletividade) não um ou dois, mas vários que contribuíram de forma clara para o despertar da célula mudancista e portanto, mesmo que ocultamente, carregarão para o túmulo, como cúmplices que são, a culpa que tiveram nessas transformações.
Diferentemente, que Morpheus em Matrix, eles não ofereceram ao Neo a escolha entre a pílula azul (conservação da ilusão) e a vermelha (despertar para a realidade), mas sim doses cavalares de pílula vermelha. O objetivo era despertar alguém, para que realizasse o que eles, nem em sonho, teriam coragem. É muito fácil, hoje repudiar e se opor contra o que ajudaram a criar.
Para os distoantes do coro da ilusão, não é importante encontrar culpados pelo seu encontro com a realidade, mas de estabelecer, com certeza, as verdade dos fatos.
Ninguém desperta sem ajuda, incentivo e colaboração, isso não ocorre da noite para o dia, após anos de acomodação e aceitação de determinadas situações . É verdade, e importante se frisar, que quem muda, muda porque quer, de livre e espontânea vontade, a mudança somente se valida pela certeza interior, que existe em quem muda. Mas, sua base e colunas são formatadas por informações que colaboraram para essa validação.
Por outro lado, nessas coletividades existem aqueles, que de pronto se identificam com o teor da voz mudancista, mas se deixam dominar pelo medo de aceitar a realidade, ou pior, preferem varrer a sujeira para debaixo do tapete que lá é o seu lugar.
Importante aprendermos, que todos os que mudam, e por conta dessa mudança, são defenestrados de alguma coletividade ou se auto-expurgam delas, tem uma história para contar. Os motivos diferem, a história pessoal também, mas os processos enfrentados são altamente semelhantes, para não dizer idênticos. O problema é, quem tem coragem de escutar essa história com isenção, sem idéias pré-concebidas e segundas intenções? Quem tem coragem de se olhar no espelho?
O mais engraçado, é que quando a voz mudancista se torna pública, expondo a sua vivência e experiências acumuladas, demonstrando que determinados modelos de realidades tem aspectos, que não devem ser seguidos, servindo como alerta a um universo maior de interessados no assunto, a coletividade afetada por esse encontro consigo mesmo, trata de se apontar desnecesariamente. Elas mesmos acabam se expondo ao mundo, sem ter sido em nenhum instante expostas. Levadas pelo reducionismo de se sentirem atacadas, transformando tudo como uma vingança ou ataque pessoal, fazem uma oposição exacerbada, que contribui muito mais como anti-propaganda de si mesmos, que qualquer outra coisa. Eles mesmos se cobrem de telhados de vidro e apenas referendam o que desejam desesperadamente, que se mantenha oculto.
Todo mundo pode se encontrar, ou se identificar com situações gerais, específicas, ou coincidentemente semelhantes em algo público, como um blog, por exemplo, mas tomar como algo pessoal, de endereço certo ou qualificar como bem e mal, faz parte da natureza de cada um.
Mudar toda a sua linha de pensamento, ou mesmo se identificar com coisas, que antigamente não se cogitava, antes de mais nada, é exercer plenamente o seu direito ao livre-arbítrio.
Tudo muda, afinal houve época em que se defendia que a Terra era plana e o centro do Universo. Galileu, teve que abjurar sua teoria que dizia o contrário, com risco de ser queimado na fogueira do Santo Ofício. Vale salientar que ele estava certo, e que a Inquisição é coisa do passado. Infelizmente a Igreja só reconheceu o seu erro no final do séc. XX.
Graças à Deus, estamos em pleno século XXI, embora muita gente prefira a ignorância e a volta da sociedade feudal.
Até prova ao contrário, mudança é uma sinfonia inacabada, até que nós, você e eu, amigo leitor, decidamos escrever e tocar a última nota.

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