segunda-feira, 25 de março de 2013

A Batalha pela sua Alma (Parte I)

Há muito tempo as religiões e cultos afrobrasileiros enfrentam um ataque declarado de intolerância religiosa, preconceito e discriminação de toda a sorte, engendrado em sua maioria pelas igrejas evangélicas, principalmente as "neopentecostais”(1) que ganharam popularidade, espaço na mídia (televisiva, de radiodifusão e impressa) e expressão política. A capilaridade com que essas igrejas se expandiram em solo brasileiro, muitas fora dele e os motivos que levaram uma representativa parte da população brasileira a se converterem, têm sido analisados por muitos cientistas sociais e religiosos em seus estudos e teses, agora não mais vistos como um mero fenômeno social religioso, mas sim, como uma incontestável realidade no quadro demográfico de nosso país.

Dados do Censo Demográfico 2010 apontaram que a população evangélica no Brasil passou de 15,4% da população para 22,2% o que representava à época 42,3 milhões de pessoas colocando-a como a segunda religião com o maior número de adeptos no país. Estudos evangélicos acreditam que se essa taxa de crescimento persistir ou aumentar como se espera, em 2022 eles poderão ter em seus quadros 50% da população do país. Para o Brasil que ainda é considerado o maior país do mundo em número de católicos nominais (123 milhões ou 66,4% da população em 2010, mesmo assim quase 10% a menos que o censo de 2000) e com o Espiritismo sendo a terceira potência religiosa com 3,8 milhões de adeptos, esse volume de evangélicos em 2010 e sua curva de crescimento é no mínimo preocupante para não dizer outra coisa. Nesse mesmo censo marcamos presença com 407 mil pessoas e o Candomblé com 167 mil.

Estatísticas a parte, para nós umbandistas, esses números significam apenas uma coisa, a construção de um cenário cada vez mais hostil naquilo que já foi denominado de "conflito religioso", "guerra religiosa" ou "guerra espiritual" por alguns renomados estudiosos. Ari Pedro Oro(2) em 1997 tinha uma pergunta em mente "NEOPENTECOSTAIS E AFRO-BRASILEIROS: QUEM VENCERÁ ESTA GUERRA?”(3). Vale salientar, que essa é uma guerra que nós afro-brasileiros nunca procuramos, ao contrário somos os alvos e vítimas.

Ao generalizarmos essa beligerância para todos os evangélicos o fazemos por um motivo óbvio, as suas crenças e doutrinas religiosas não permitem outro modo de comportamento que não seja a demonização de nossos ritos, liturgias, entidades, orixás etc. Há raras exceções nessa minha avaliação, mas são vozes apagadas diante do clamor da multidão. Muitos evangélicos nos tratam com uma educação dissimulada e um fio de tolerância mínimo, outros se vestem da capa do verniz social e do bom conviver obrigado, a maioria, no entanto, se comporta como massa de manobra do que se prega nas igrejas que frequentam. Não é permitido aos evangélicos o conceito e prática da alteridade(4) e de que nossas religiões, as afro-brasileiras, são um caminho legítimo para o Sagrado, tanto quanto a deles. Sem essa prática de alteridade, para os evangélicos não existe – eles e os outros, mas sim, eles (salvos) e os outros (não salvos), pior ainda, os outros precisam serem salvos por eles.

O Outros para os evangélicos somente serão iguais quando forem convertidos, enquanto isto não acontecer os outros são os opositores que devem ser combatidos, os leigos que devem ser doutrinados, os incautos que devem ser convencidos até serem salvos em nome de Jesus.

Uma vez evangélico a bandeira da Salvação(5) foi cravada definitivamente em sua mente, Jesus torna-se o general da sua vida, a Bíblia uma poderosa arma, o testemunho repetitivo a prova de sua fidelidade, a palavra uma metralhadora giratória (para ataque, pregação, doutrinação dos ainda não salvos e auto-hipnose, ou o convencimento de si mesmo), o dízimo a valorosa contribuição a causa, o voluntariado demonstração de desprendimento da vida profana e, finalmente o batismo nas águas a confirmação do crente para a igreja e o seu ingresso definitivo na família de Deus.

Os passos para uma conversão seriam até simples se o trabalho envolvido para a conquista de um novo prosélito não fosse bastante complexo e com profundas consequências para o destinado a se salvar.

Primeiro Passo: A pessoa deve se reconhecer como um pecador.

Para isso desde o início toda uma culpa é trabalhada, quanto maior for o sentimento de culpa mais profundo e concreto será o alicerce em que se edificarão as condições para a conversão do indivíduo. Esse é um passo que permite um rápido acesso a pessoa já que geralmente todo mundo tem diversos problemas pessoais ou familiares. Ao se maximizar as problemáticas enfrentadas pela pessoa como originadas de um caminhar em pecado, sem Cristo no coração, que a sua única opção é aceitar Jesus como seu Salvador e usando do artifício de uma doutrinação massiva e insistente consegue-se quebrar a resistência de quem se encontra frágil perante a vida e com a mente despreparada para argumentar e aguentar a pressão doutrinadora.

A facilidade como isso acontece é uma realidade, por mais que não desejemos aceitar. Como diz Dick Sutphen em seu livro “A Batalha pela sua Mente” citando o escritor e filósofo norte-americano Eric Hoffer – Eu estou convencido que pelo menos um terço da população é aquilo que Eric Hoffer chama “verdadeiros crentes”. Eles são sociáveis, e são seguidores... São pessoas que se deixam conduzir por outros. Eles procuram por respostas, significado e por iluminação fora de si mesmos. Hoffer, que escreveu O VERDADEIRO CRENTE, um clássico em movimentos de massa, diz: “os verdadeiros crentes não estão decididos a apoiar e afagar o seu ego; têm, isto sim, uma ânsia de se livrarem dele. Eles são seguidores, não em virtude de um desejo de autoaperfeiçoamento, mas porque isto pode satisfazer sua paixão pela autorrenúncia!”. Hoffer também diz que os verdadeiros crentes “são eternamente incompletos e eternamente inseguros”!

Segundo Passo: Arrepender-se e abandonar os pecados.

Aqui começa o processo de dissociação de tudo o que existe na sua vida que represente, ou seja, o motivo da pessoa reincidir no pecado. É nesse passo que a pessoa exclui tudo aquilo que a pregação do pastor e a doutrina professada pela igreja que vai adotar identificam como fator de pecado em sua vida. Deve não só demonstrar profundo, verdadeiro e contido arrependimento, mas provar de forma incontestável o abandono do pecado. Nesse ponto o corporativismo evangélico é muito forte. Uma coisa que a pessoa não pode reclamar em seu processo de conversão é a falta de assistência, apoio, orientação e companhia. Invariavelmente, sempre se tem uma ou mais pessoas próximas acompanhando de muito perto os seus passos, incentivando, levantando a moral e martelando todo tempo a “palavra”, enfim fazendo o que é possível para que não haja queda, retrocesso, desistência ou desvio no caminho de quem vai se salvar.

O problema que acontece nessa fase de expurgação do pecado e de ter que provar que abandonou tudo o que o motiva a pecar na sua vida; é o ostracismo que o indivíduo acaba, ele mesmo, se impondo. Sim, porque não existe um limite, um filtro que clarifique, com total isenção, quais setores e pessoas da sua vida contribui para o pecado. Na dúvida, se afaste de tudo e de todos. Livra-te do mal, doa a quem doer! Se teu olho é motivo de escândalo, bem... Arranca-o fora! E, assim muitos o fazem, sem critério, sem nenhum motivo racional, obnubilado pelo medo de cair novamente e de ter comprometido o seu início de caminhada na nova fé!

Terceiro Passo: Colocar toda sua confiança em Jesus Cristo.

Em outras palavras é aceitar a "Palavra", "Crer que Deus enviou Seu filho unigênito para cumprir a pena que seria sua!" Fazendo isso à pessoa é perdoada de todos os pecados cometidos no passado, não tendo mais nenhuma culpa ou responsabilidade por nenhuma consequência de seus atos pregressos. Para mim, essa é a pedra de toque da conversão, o aparelho “apagador de memórias” do filme Homens de Preto perde é feio. Somente posso entender que o trabalho realizado para maximização da dor da culpa, dos sentimentos contraditórios, das emoções exacerbadas e do cansaço diante das marteladas doutrinárias alcançam uma intensidade tamanha que a mente do indivíduo entra em curto e o instinto de sobrevivência aperta o botão de “reset”, não somente reiniciando o sistema operacional do cérebro, mas formatando o disco rígido da alma. Eis então, que tomando a “pílula vermelha” da nova fé, Neo-convertido transforma o deserto do real da sua vida, que deveria ser enfrentado por si mesmo em Matrix e, em Matrix a realidade virtual da religião que passa adotar, entregando nas mãos de terceiros o controle da sua existência.

Quarto Passo: Receber a Jesus Cristo como seu único Salvador e Senhor da sua vida.

Essa fase da conversão é o ápice da purgação final. Após passar pela tribulação do reconhecimento como pecador e o arrependimento inconteste o agora convertido sofre a catarse final e é banhado pela luz no fim do túnel do extenuante processo de recriação que a conversão produz.

Sim, recriação! O agora crente ou convertido não passou por uma reabilitação, uma reeducação ou uma reforma, mas foi recriado (nova criação) e passa a viver em uma união vital com Cristo! O novo convertido é uma nova criatura!

Agora está tudo explicado e ficam claro as atitudes e comportamento do convertido. Se, após o período de gestação e parto religioso, o fulano pecador de outrora deixou de existir e o "cristano" (união vital de Cristo com o novo sicrano) surgiu, qual fênix das cinzas, significa dizer que ele nasce zerado, uma página em branco, sem mais um passado pecador, já que o passado se foi e eis que tudo é novo!

"Bebê espiritual" assim é considerado o novo convertido e como tal deve ser cuidado, alimentado e zelado pela família que agora é a sua, a família de Deus. Assim, todos da igreja devem colaborar como verdadeiros "anjos da guarda", dispostos a tomar a defesa nas diversas batalhas que o novo convertido vai enfrentar nessa guerra para a consolidação da sua conversão.

Em linhas gerais, esses são passos que a pessoa precisa dar para se tornar um evangélico de carteirinha. A certificação de colação para esse novo grau é o batismo nas águas, cuja prova final é realizar um enfrentamento com as situações e pessoas do seu passado (que não existe mais) para comprovar a todos e a si mesmo a sua condição de ser recriado.

- Continua na Parte II -

(1) Neopentecostalismo: é uma vertente evangélica, considerada a Terceira Onda do Pentecostalismo cujas doutrinas se baseiam, entre outras, na Teologia da Prosperidade (1.a), na utilização massiva da mídia (Televisão, Rádio, Jornal, Editora de Livros) para a propagação da Igreja e proselitismo e a batalha espiritual (confronto espiritual direto com os demônios), maldições hereditárias, possessão de crentes (domínio demoníaco sobre as pessoas, resultando em doenças ou fracasso), etc.

(1.a) Teologia da Prosperidade: em tese é a doutrina que ensina que uma vida medíocre do cristão é um indício de falta de fé. Então um cristão deve ter a marca da plena fé, ser bem-sucedido, ter saúde plena física, emocional e espiritual, além de buscar a prosperidade material. A pobreza e a doença derivariam de maldições, fracassos, vida de pecado ou fé insuficiente e incredulidade.

(2) Professor de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

(3) Debates do NER, Porto Alegre, ano 1, n. 1, p. 10-36. Novembro de 1997.

(4) Alteridade: A palavra alteridade possui o significado de se colocar no lugar do outro na relação interpessoal, com consideração, valorização, identificação e e capacidade de dialogar. A pratica alteridade se aplica aos relacionamentos tanto entre indivíduos como entre grupos culturais, religiosos, científicos, étnicos, etc. Nas palavras de Martin Luther King “Ou aprendemos a viver como irmãos, ou vamos morrer juntos como idiotas”.

(5) Salvação: A palavra salvação, tem sua origem no grego soteria, transmitindo a ideia de cura, redenção, remédio e resgate; no latim salvare, que significa salvar e seu uso mais frequente tem a ver com libertação eterna e espiritual. No caso dos evangélicos diz respeito a ser salvo do julgamento de Deus sobre o pecado. O pecado nos separou de Deus, e a consequência do pecado é morte. Salvação bíblica se refere à libertação da consequência do pecado e envolve, portanto, remoção do pecado. Em outras palavras, salvação é a libertação espiritual e eterna que Deus concede imediatamente a aqueles que aceitam Suas condições de arrependimento e fé no Senhor Jesus. Salvação só é possível através de Jesus Cristo  e depende de Deus para a sua provisão, garantia e segurança.

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sábado, 21 de julho de 2012

Mística dos Eleitos

Aos poucos foram caindo como peças de dominó.
As intrigas palacianas, os desafetos,
a inveja de muitos, as armadilhas dos outros
derrubaram um a um.

Acreditavam que ainda serviam.
Acreditavam que ainda tinham voz.
Acreditavam que ainda eram um grupo.
Acreditavam, acreditavam e acreditavam.
Era o que faziam com muita propriedade.

Pensavam que as turbulências eram passageiras,
que as não-conformidades eram temporárias,
que tudo em algum instante voltaria ao seu eixo original.

Diziam, para si mesmos, que na construção de um ideal sacrifícios eram necessários.
Em nome de uma causa maior as baixas que ocorrem são aceitáveis.
Para tudo que acontecia existia uma explicação razoável, lógica e fundamentada.

Participaram de tudo.
Colaboraram com muita coisa.
Partilharam entre si muitos segredos.
Acumularam no decorrer do tempo muitas histórias.
Foram testemunhas oculares de muitos fatos
e protagonistas ou coadjuvantes de outros tantos.

Seus olhos se fechavam para não enxergar os erros.
Seus ouvidos surdos a tudo que podia vir a macular os seus ideais.
Da suas bocas quando necessário jorravam palavras de ataque aos inimigos e de elogios e incentivo aos que acatavam a verdade que lhes era comum.

Sobre eles não havia meio termo.
Amados, temidos e respeitados.
Afinal, a turba enxergava neles o reflexo fiel dos raios do sol.

Servos incondicionais.
Eleitos da primeira-hora.
Guarda pretoriana.
Tropa de elite.
Escudo de defesa.
Guerreiros incontestes.
Circulo interno.
Amigos, companheiros e irmãos.

Como arautos, porta-vozes e ministros
eram os que desfraldavam e ficavam a bandeira.
Ditavam o ritmo do tambor de guerra.
Direcionavam os tempos e movimentos da causa.
Serviam de juízes, promotores e advogados de defesa,
como também de executores fiéis da lei.

A tempestade os engolfou.
O sibilar das serpentes os encantou.
O veneno das cobras lhes adoeceram.
Vitimizaram-se não como grupo, mas cada um por sua história particular.

Uns se renderam as psicoses, neuroses, estresses e traumas 
adquiridos e desenvolvidos com o passar do tempo.
Outros simplesmente esquecidos, abandonados e rejeitados.
Muitos ainda, nem perceberam que estão relegados ao segundo plano, sem notar que são apenas elementos de figuração ou objetos de cena.

Eleitos da primeira-hora não perceberam
o quanto perto estavam do abismo.
Que a escuridão os engolia para cuspi-los de Maya 
de volta ao deserto do real de suas vidas profanas.
No fragor das batalhas travadas não se atentaram 
para o perigo do caos que a revolução lunar poderia gerar de si.

Esqueceram que os eleitos servem a um ciclo.
Ciclo morto, eleitos postos!
Cada ciclo tem os eleitos que merecem.
No império, a saudação sempre é a mesma:
"Ave César! Os que vão morrer te saúdam!"
Quem ainda vive no ciclo passado, mais cedo ou mais tarde sofrerá a sentença dos polegares para baixo.

Para alguns já vão tarde.
Para outros foram vítimas da lei do retorno.
Seus traços serão apagados.
Suas colaborações rapidamente esquecidas.
Suas histórias distorcidas.

Aos seu iguais, seus pares de sempre, 
a certeza que quando a vida eterna em sua espiral ascendente os devolver ao mesmo ponto um nível acima, será uma satisfação muito grande esse reencontro e uma honra estarem ombro a ombro em uma outra batalha todos juntos novamente.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Palavras Cruzadas Finais


Assim como concedi destaque ao comentário que originou o artigo Palavras Cruzadas, abro mais uma vez o mesmo espaço para a resposta do comentarista em questão.

"Prezado Caio!

Agradecemos o Reconhecimento, mas não é questão de coragem, mas de encarar a Realidade.

Você diz estar na Umbanda há mais de 30 anos. É incrível como tanta gente persiste nos equívocos, apesar de tanto tempo e tantas experiências.
Disse tanta gente, porque você não está só nesta caminhada..., pois tem uma Multidão, ainda presa aos Resquícios Religiosos, Herança Maldita do Catolicismo Inquisidor e da infeliz Interpretação dos Ritos Candomblecistas, que fazem uma Mistureda de Valores e Conceitos, sem o menor fundamento. Tem momentos que não se sabe o que definir, se é Ritual de Candomblé ou de Culto Católico.
Defendemos, Meu Caro Caio, a Liberdade, dentro de uma Realidade Espiritual, que o Espiritismo legou ao Mundo, em seus 150 anos de existencia, onde parafraseamos Kardec, que resume todos os conhecimentos em Evolução Constante, e, nos perdoe, mas desprezamos, embora respeitemos os "gostos", bons ou maus, de "Metaformofose Ambulante", se comparada com as Experiencias do Mestre Liones.
Não fazemos Demagogia e não nos curvamos, perante Autoridades Criadas pela vontade, muitas vezes de fanatismos descabidos.
Como pode um Ser Humano, dentro das tuas condições, como se diz, ainda errante, se considerar e aceitar ser Entronado com Pai de Santo.
Acho que o Irmão, apesar de tantos anos de Vivencia no Umbandomblé, ainda não aprendeu ou não tem a humildade que apregoa.
Quanto a Saudação Namaste, já que sabe ser de Origem Hindu, deveria entender o que significa e que a usamos, como usamos comumente, o Saravá, o Axé, o Salve, o Jesus te Abençoe...
Somos e estamos Espíritas, mas pode crer, antes de tudo, somos Espiritualistas.
Salve a Tua Banda!
Salve os Teus Orixás!

J Lara" 

Encerro o diálogo que pelo visto nunca foi possível.
Se me falta a humildade, como você apregoa, prefiro ficar com a possibilidade de ainda ter a oportunidade de aprendê-la, do que já possuir a arrogância de ser detentor da "verdade" absoluta, ou "realidade a ser encarada" como queira chamar, bem como manifestar a prepotência de querer impor isso a todos!

Salve a sua "verdade"!
Salve a sua "realidade"!
Salve o seu "ser" e "estar", bem como seu "antes de tudo"!

Namastê,

Pai Caio de Omulu

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Cuspir no prato em que comeu–Parte II (Final)

A intolerância religiosa é pauta no dia-a-dia da Umbanda e de todas religiões afro-brasileiras! Intolerância "intra" e "inter" religiosa.
Com respeito a intolerância intra-religiosa (por dentro da Umbanda, no nosso caso), os artigos desse blog estão repletos de referências, reflexões e exemplos.
Mais urgente, é falarmos sobre o aspecto da intolerância inter-religiosa (das outras religiões em relação a nossa), essa é a causa que deveria nos unir independente das diferenças e dos motivos que nos separam.
Próximos a nós, pelos laços do fenômeno mediúnico, continuamos a sermos considerados "baixo espiritismo" (engraçado é que nunca pretendemos ser "alto espiritismo", ou algo que o valha), por adeptos de uma doutrina, que exige não ser tratada como uma religião, mas que age como uma, principalmente ao fazer esse tipo de comparação. Chegamos ao ponto de assistirmos um movimento de interpretação e prática da Umbanda sob o ponto de vista e orientação da doutrina de Kardec. Livros é que não faltam para corroborar o que eu estou dizendo. O certo e errado para Umbanda agora é definido por conceitos, metodologias e práticas espíritas.
Cercando-nos, estão os diversos segmentos evangélicos (pentecostalismo, neo-pentecostalismo e os ministérios similares), do lado católico a Renovação Carismática e demais grupos de fé avivada que estão se proliferando em seu seio.
Para completar, como citei na primeira parte desse artigo, os evangélicos buscaram na força política aumentar sua presença no centro das decisões e a Igreja Católica com a Concordata dar a volta por cima "matando dois coelhos com uma cajadada só" (os evangélicos e as demais religiões, no meio as religiões afro-brasileiras).
Interessante observar que, no caso dos evangélicos, bastando um mergulho raso na vida de Lutero, por exemplo, percebemos, que nunca foi o desejo dele, toda violência e revolta que tomou conta da Europa por conta da Reforma. Seu ideal original era a reforma por dentro do Catolicismo (para isso como monge ele tentou a todo custo valer suas teses), e não por fora e, principalmente, servindo como bandeira para as questões políticas e sócio-econômicas que solapavam o velho continente à época. Por outro lado, no caso da Igreja Católica, Jesus nunca quis fundar uma religião, arranjaram a pedra e sentaram Pedro nela e ninguém disse nada, como quem cala consente... O Imperador Constantino[1], mais tarde, realizou o que está longe de uma comparação, mas que podemos aludir como a primeira concordata da Igreja.
Allan Kardec era um professor, que diante das manifestações mediúnicas, que ocorriam nos salões da capital francesa, descobriu as portas para o mundo espiritual e de forma isenta, ética e livre de preconceitos procurou formatar uma doutrina de entendimento e prática desses fenômenos.
Importante dizer a meu favor, que não sou contra as lutas que se referem as questões de desigualdade social e econômica, e dos direitos liberdade de qualquer espécie, como as situações que ocorriam na Europa na época de Lutero. Nem tão pouco, sou alheio ao sofrimento encetado pela perseguição aos primeiros cristãos. A minha visão aqui é que, em ambos os casos, a causa destes (Lutero e os primeiros cristãos), eram por uma espiritualidade maior e os homens a transformaram em conquista de poder, teocracia e império econômico-financeiro. Tenho também o maior respeito pelo Espiritismo, mas não posso concordar com o desprezo de alguns seguidores desta doutrina aos fenômenos mediúnicos umbandistas, a desqualificação espiritual que fazem das nossas entidades, muito menos, como já explanei reiteradas vezes, com a releitura formatada dessa dita "umbanda espírita". 
O fato é que se partirmos exclusivamente das intenções reais de Lutero, de Jesus e de Kardec, nada justifica, a intolerância religiosa que vemos se manisfestar desde o passado até os dias atuais. Em menor ou maior proporção, essa intolerância acontece e diante disso muitos membros das religiões afro-brasileiras já estão agindo de forma reativa a essas ocorrências. Está se tornando um círculo vicioso.
Se fecharmos um olhar sobre os evangélicos, por serem estes os que mais costumam praticar uma "cruzada messiânica" contra nós, podemos listar um incontável número de situações que vivenciamos no nosso dia-a-dia:
  1. As frases, "Jesus te ama!", "Queima Jesus", "Esteja repreendido", "Sangue de Jesus tem poder", " Deus é Fiel", "Só Jesus salva!" e outras mais, usadas como uma arma de confrontação.
  2. Os alto-falantes voltados para as ruas, e os sons cada vez mais potentes das igrejas (será que eles acreditam mesmo, que a gente ao escutar, como se diz aqui no Ceará, vai "emprenhar pelo ouvido"[2] e se entregar a Jesus, só porque eles querem?).
  3. A invasão catequista dos armados com a Bíblia nas poucas cerimônias públicas que realizamos, como as Festas de Yemanjá nas praias.
  4. O entupimento nas caixas de correio de nossas residências com folhetos, panfletos e mensagens doutrinárias.
  5. O acordar, em pleno domingo às 7h00 da manhã, com gente na nossa porta perguntando se sabemos o nome de Deus.
  6. Os "spams" nas caixas de entrada dos nossos e-mails.
  7. Os "fakes" criados para detratar as religiões afro-brasileiras em vídeo, nas redes sociais e em alguns sites, às vezes se passando por gente nossa.
  8. As entradas de "nicks" seja como indivíduos ou grupos nas salas on-line, chats e listas de discussão.
  9. A proliferação de informação, na verdade desinformação, sobre as religiões afro-brasileiras que se propaga na web, na imprensa etc.
  10. As cisões familiares pela conversão de um, ou de alguns de seus membros, pois eles não se contentam em apenas se converterem é preciso a partir daí converter a todos, sem exceção.
  11. A segregação a todos que não pertencem a igreja e o repúdio a tudo na vida que não está de acordo com a Bíblia.
  12. A facilidade com que tudo que é relacionado aos rituais das religiões afro-brasileiras serem taxados de "magia negra" e "coisas do demônio".
Enfim, poderia acrescentar uma quantidade imensa de pontos aos aqui listados. Se você for atrás e fazer uma contagem de quantas vezes eles pronunciam as palavras Jesus e Satanás, acho que Jesus ganharia por uma pequena margem. Se fosse uma eleição teria segundo turno. Se não existisse Satanás, quem ocuparia seu lugar? Sim, porque sem o diabo não tinha o que ser combatido, logo seria uma vida sem motivo e uma guerra sem causa. Brincadeiras a parte, a pergunta que não quer calar é a seguinte: Tudo isso denigre e invalida o protestantismo como religião? Desqualifica seu "religare"? Não! Não vejo essa atitude partindo, por exemplo e me corrijam se eu estiver errado, de batistas e presbiterianos. Percebo esse recrudescimento gerado pelos pentecostais, neo-pentecostais, avivados e os defensores da teologia da prosperidade. Esses sim, me parecem levar sua crença em Jesus as últimas consequências em suas vidas e em relação a vida dos outros.
Mas a maior chaga, na minha opinião, o pior tipo de convertido é aquele que foi ex-adepto da Umbanda, do Candomblé, de alguma religião afro-brasileira.
Esse sim, chega a um tipo de enfrentamento e confrontação extrema. Esse é tomado por uma necessidade fora do comum de expurgar de si o que agora considera pustulento e asqueroso.
Esse tipo de convertido, não precisa de uma lavagem cerebral, ele mesmo faz questão de uma lavagem de alma.
Para isso, o primeiro passo é negar a tudo e a todos que fizeram parte desse seu passado, que não podendo ser apagado da sua vida, tem ao menos que  ser esquecido, ou melhor apartado de vez. É necessário uma verdadeira catarse, por isso muitos reúnem os antigos pertences, da sua ex-religião (fardamentos, colares, imagens etc.) e queimam. Se fossemos usar o nosso linguajar é um descarrego dos "brabos"! Como eu já fiz alusão acima tem que se descarregar o mais profundo do seu "eu", faz-se urgência se passar de impuro para puro, de perdido para salvo, de pecador para um ser livre de pecados. Nova vida, novo mundo, novo tudo.
Assim amigos, familiares, locais, interesses dessa época devem ser ignorados por se tratarem agora de um chamamento a uma vida sem "Jesus". Rapidamente todos esses vazios são ocupados pela igreja, pelos fiéis, a bíblia etc., senão vejamos:
  1. A música passa a ser somente a do gênero gospel, cantado a todos os pulmões, servindo ao mesmo tempo de auto-hipnose e de tentativa de conversão de quem possa escutar.
  2. A leitura restrita tão somente a Bíblia, os livros, revistas e demais impressos da Igreja ou da literatura evangélica. A Bíblia aliás, nesse caso, vira sinal de identificação, pois ele passa a carregá-la para cima e para baixo para ficar bastante gasta, pois quanto mais ela parecer usada, mais a pessoa se apresenta aos demais irmãos como um leitor fiel. Ao mesmo tempo, passa a ter a mesma utilidade do "Almanaque dos Escoteiros-Mirins" (dos sobrinhos do Pato Donald - quem for das antigas, como eu, vai se lembrar), livro de consulta universal, em que se encontra resposta para tudo e qualquer coisa. Se não tiver na Bíblia, no mínimo não é verdade.
  3. As festas, baladas e shows que se costumava ir, agora só se for religiosamente correto e acompanhado dos "irmãos" e "irmãs" (Clube do Bolinha, misturado com o da "Luluzinha", em nome de Jesus).
  4. A bebida alcoólica que não podia faltar no passado, agora reconhecida como a "bebida do diabo", é substituída por refrigerante tomada aos júbilos e gritos de "Glória Senhor Jesus".
  5. O tempo passa a ser ocupado com tudo que for relacionado a igreja e se possível mantendo-se em grupo reunidos para uns ajudarem aos outros não caírem em tentação.
  6. O discurso muda, a maneira de falar também, se fala agora por versículos, capítulos e livros bíblicos, a conversa com um profano, ou melhor dizendo com alguém "sem Jesus", sempre tem a conotação de doutrinar, catequizar e converter.
  7. As roupas passam ser sóbrias e bem comportadas, pois expor o corpo de alguma forma é pecado.
  8. A vida tem que obrigatoriamente se transformar, pois tudo agora é melhor que antes, a uma grande diferença entre uma vida nas trevas e uma renovada em Jesus.
Devidamente pasteurizado, o segundo passo para o agora "irmão" ou "irmã" é ter que provar (esse é o maior dos problemas), que deixou para trás, de forma definitiva, a sua vida pregressa. É nesse instante que se começam as zombarias, as piadas, o sarcasmo, o fazer pouco, por exemplo da sua ex-religião, da vida que parece que não foi vivida, que foi um engano, um erro, uma queda, uma destruição. Como se lembrar das coisas boas que se viveu nessa época agora de trevas? Como sentir algo de bom pelos amigos dessa vida de descaminhos, que se tornou a Umbanda, para ficarmos no exemplo?
Se médium de incorporação, as entidades com quem tanto se trabalhou, se transformam da noite para o dia em "demônios", é o diabo Caboclo X, o demônio Preto-velho Y, o satanás Exu H e assim por diante. O Pai ou Mãe no Santo passa a ser Pai e Mãe da Macumba. Os irmãos de corrente são vistos como seguidores do demônio. Para todos eles um "queima Jesus", ou "esteja repreendido" já afasta o perigo causado por esse possível contágio. Sim, por que só em estar em ambiente próximo é um perigo, é como estar perto de alguém ou alguma coisa virulenta e mortal para a sua vida purificada.
A certeza dessa verdade, tem dividido famílias sim! Fundamentados na Bíblia, eles acreditam literalmente no evangelho de Mateus, em que Jesus afirma: “Não pensem que eu vim trazer paz à terra; eu não vim trazer a paz, e sim a Espada. De fato, eu vim separar o filho de seu pai, a filha de sua mãe, a nora de sua sogra. E os inimigos do homem serão os seus próprios familiares” (Mt 10, 34-36). Outra interpretação não há, a não ser no que na Bíblia está dito e traduzido. Se não conseguem enxergar além da letra que mata, se não abstraem o espírito que vivifica, não serei eu que tentarei convencer ninguém do contrário. Me abstenho de explicar o rico significado que esse trecho do Novo Testamento contém.
Uma coisa é certa, caros ex-umbandistas e neo-convertidos, o Amor de Jesus não está sujeito a literalidade de palavras escritas, pois esse Amor transcende a letra, pois é Espírito Vivo. A tudo e a todos envolve, e não somente aos escolhidos, ou os que decidiram escolhê-Lo. Ele não exclui, inclui, sem olhar, raça, orientação sexual, classe social e crença religiosa.
Aproveito o ensejo para encerrar, já que vós deveis, nessa sua nova "existência" acreditar piamente nessa passagem do Evangelho de Mateus, que também deveis acreditar em algo maior do que essa afirmação de Jesus, pois as palavras que citarei agora, vieram direto de Deus, do qual Jesus é o Filho, para serem gravadas com fogo nas tábuas que Moisés levou ao monte - o Quinto Mandamento: "Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá."
Se preferirem algo direto e claro, vou no popular: NÃO CUSPAM NO PRATO EM QUE COMERAM!
[1] Sobre o Imperador Constantino leia: O Império e a Igreja
[2] "Emprenhar pelo ouvido" é uma expressão que significa escutar uma coisa e acreditar sem questionar a veracidade da mesma, nem tentar ouvir as outras versões de uma mesma estória.

domingo, 20 de maio de 2012

Cuspir no prato em que comeu! – Parte I

Até para quem faz parte, entender o que é religião é muito complicado.
O sentido do "religare" fica perdido sob camadas e mais camadas de tantas outras coisas, que a maioria dos religiosos, nem conseguem descobrir qual o verdadeiro motivo que os fizeram cruzar as portas das igrejas, quanto mais o que os levou a decisão de realizarem os ritos de passagem ou iniciação (todas as religiões do mundo tem seus rituais de inclusão).
A função da religação com o Sagrado, que é o de conceder pleno significado a fé, proporcionar o motivo para a caminhada na senda escolhida e tornar-se a essência do viver religioso, quase nunca surge no consciente do adepto e se aparece está isento de significado e pior de relevância.
Por conta disso, a grande porta de entrada das pessoas nas religiões continua sendo a dor, em suas diversas matizes e consequências. Para alguns, pode ser também a vontade de fazer parte de alguma coisa (se tornar alguém se possível, ou no mínimo um igual),  para outros é simplesmente fuga da realidade. Raros são aqueles que chegam com a compreensão e o desejo real de desenvolver, com harmonia e equilíbrio, a sua espiritualidade (aqui usada no pleno sentido de elevação, transcendência e sublimidade).
Busca-se, na maioria das vezes e de forma desesperada, o tratamento dos sintomas e não das causas que os afligem. Com esse tipo de demanda os templos e casas espirituais acabam se transformando em prontos-socorros das mazelas humanas, unidades de emergência para soluções de todo e qualquer tipo de problema, consultórios sentimentais, psicológicos, emocionais e psíquicos, em resumo, a última esperança, os botes salvadores do naufrágio do "Titanic" que são as suas vidas.
Embora não seja uma ideia original de Karl Marx, na sua obra publicada em 1844, Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, encontramos a citação que se tornou famosa desde então: "A religião é o ópio do povo" (em alemão "Die Religion ... Sie ist das Opium des Volkes")[1]. Antes de Marx, Henrich Reine (poeta romântico alemão) no seu ensaio sobre Ludwig Börne, em 1840,  escreveu: "Bendita seja uma religião, que derrama no amargo cálice da humanidade sofredora algumas doces e soporíferas gotas de ópio espiritual, algumas gotas de amor, fé e esperança."
Voltando, a obra de Marx, e anterior a frase que já citamos, destacamos ainda os seguintes excertos: "É este o fundamento da crítica irreligiosa: o homem faz a religião, a religião não faz o homem. E a religião é de fato a autoconsciência e o sentimento de si do homem, que ou não se encontrou ainda ou voltou a se perder.", mais ainda, "A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma."
Independente, se concordamos ou não com Karl Marx e do contexto e intenção de sua crítica, fica claro, pelo menos para mim, o sentido de troca que a maioria das pessoas realizam com as religiões.
Esse nivelamento por baixo, na minha opinião, é o que gera num extremo o fanatismo, a paixão exacerbada e a miopia religiosa, e do outro a indiferença, o ceticismo e o ateísmo. Entre um extremo e outro, temos as ilusões geradas pelas promessas de entrega que as religiões passam a significar e o puxar de tapete das decepções quando as fantasias da imaginação; seus devaneios, sonhos e quimeras caem por terra, se é que vocês estão me entendendo.
O ponto que eu quero chegar nesse momento é que as religiões atuam como válvulas de escape para uma boa parte da população, tábua de salvação para o que elas não conseguem encontrar nas rotinas de suas vidas.
As religiões deveriam ser uma opção de escolha, prestando o serviço de facilitadores para o último patamar da pirâmide de hierarquia das necessidades de Maslow, ou seja, a AUTO-REALIZAÇÃO! É fato que as religiões não se furtam ao trabalho para entregar ou melhorar as demais necessidades (Vide nosso artigo Maslow, Buda e a Umbanda), porém ao serem, muitas vezes obrigadas a cumprir esse papel na sociedade, deixam para segundo plano o seu objetivo com o Sagrado. É isso que quis dizer no início com o "religare" ficar perdido sob camadas e mais camadas de tantas outras coisas.
Sob o olhar da ótica cristã, muitos poderiam me dizer agora, que as religiões realizam o que Jesus veio fazer nesse mundo, afinal Ele aqui esteve por causa dos doentes que precisam do médico e não pelos sãos. O que ninguém discute ou quer entender é que se estivéssemos fazendo a nossa parte, desde o começo, Ele não precisaria ter realizado esse sacrifício, ou melhor dizendo, esse sacro-ofício. Com certeza, Ele não teria sido transformado no polarizador de um apocalipse, o fim dos tempos tendo que realizar o julgamento sumário, fazendo a escoima do trigo, separando destes o joio.
Em suma, temos o comportamento errado e fazemos a mesma leitura que Marx enxerga na sua crítica, como sociedade produzimos a religião, uma consciência invertida do mundo, porque como sociedade somos um mundo invertido.
Por conta dessa leitura errônea, de tudo que já foi dito até aqui e por uma lista interminável de outros motivos é que grassa hoje em dia, o zelo religioso obsessivo que pode levar a extremos de intolerância. E aqui não me refiro aos homens-bombas e sim a corda que cada dia mais aperta o seu laço tentando enforcar as manifestações religiosas afro-brasileiras. Ao "muro de Berlim" que estão construindo, ao cerceamento invisível a liberdade de expressão religiosa, e ao ataque cada vez mais mobilizado, que me faz dizer brincando (não sei até quando), que em breve estarei batendo macumba nos porões e nas catacumbas, escondido como faziam os antigos cristãos. Isso sem falar nos possíveis "circus" erguidos em que seremos jogados aos leões.
Dramático, exagerado da minha parte? Talvez... Espero que nunca cheguemos a tanto, mas que os papéis estão se invertendo, isto estão.
A Lei do Silêncio usada por muitos para calar os tambores dos terreiros, a Lei Anti-Fumo em que poucas são aprovadas levando em consideração o uso do fumo e da fumaça como elemento ritualístico-religioso, pululam os projetos de lei proibindo o sacro-ofício de animais, ainda chamados de sacrifício e tortura, o labirinto burocrático e fiscalizador de órgãos públicos municipais, cujo os funcionários tomados por sua orientação religiosa cristã, dificultam registros de templos religiosos de matriz afro-brasileira, isenção de IPTU nem pensar, quando não invadem para fechar ou derrubar casas espirituais, como já vimos em notícias.
Isso sem falar da invasão na política, não se trata mais um o outro candidato, mas de bancadas e mais bancadas que cada vez ganham mais força para legislar sob a ótica de uma pauta que traduza os seus interesses religiosos. Fora o "Plano de Poder", livreto lançado em 2008, com o sub-título de "Deus, os Cristãos e a Política", que ao se ler o que está as claras e nas entrelinhas fala por si, é auto-explicativo e como dizem, para bom entendedor meia palavra basta, quanto mais um livro todo.
Teoria da Conspiração?!? Não, não sou afeito a esse tipo de coisas, mas que existe uma égregora de pressão, uma teia invisível se formando no inconsciente coletivo a isso existe! A Igreja Católica já algum tempo percebeu isso, tanto que nos vimos diante do acordo Vaticano-Brasil a chamada Concordata[2], que estabelece o estatuto jurídico da Igreja Católica no Brasil (Para maiores informações e texto na íntegra veja: "Conheça na íntegra o acordo Vaticano Brasil").
Tudo isso baila ao nosso redor (das religiões afro-brasileiras), estão quase conseguindo nos fazer a dançar conforme a música tocada por eles. Assistimos, ao meu ver, de forma passiva, acreditando que o céu jamais cairá nas nossas cabeças, enterrando nossas cabeças na areia (embora seja um mito já que o avestruz não faz isso - ao ser acuado ele baixa a cabeça até o chão). Vivemos aprisionados na égregora de estaticidade, inertes, parados, com pouca ou quase nenhuma reação, e aqueles que tentam alguma coisa a nosso favor são rechaçados, por nós mesmos, por não concordarmos que eles sejam os nossos legítimos representantes.
Enquanto algumas religiões entraram no século XXI buscando ganhar cada vez mais terreno de forma legítima, embora nem sempre constitucional, nós ainda vivemos na Idade da Pedra. Somos como os homens da caverna, ainda defendendo o território de nossos habitat dos demais grupos iguais, disputando o alimento, aos urros e gritos, mostrando nossos dentes, batendo no peito e agitando nossos tacapes de ossos sem efeito maior do que tentar assustar e espantar os outros com nossa bravata.
Queremos seguir em frente e vivermos em paz em um tempo que ninguém quer nos deixar fazer isso.
Esquecemos de cobrar, de reivindicar, agir como coletivo e não só como indivíduo sobre o que a constituição brasileira garante a todos, inclusive as religiões afro-brasileiras:
"Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
(…)
VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias; (…)"
Nesse aspecto estamos cuspindo no prato em que comemos!
Deixo essa primeira parte como uma contribuição para reflexão. Na segunda parte saio do macro e entro definitivamente no micro, ou seja, o real motivo que me levou a escrever esse artigo.

FIM DA PARTE I
[1] sobre Ópio do Povo veja:
[2] sobre Concordata veja um blog completo do tema em: Reação à Concordata